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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Aplorando a Nebulosa Roseta

Nebulosa da Roseta, registrada na noite de sexta para sábado do último fim de semana, com telescópio refrator de 102mm F7 e Câmera QHY163mono.
A Nebulosa Roseta é uma nebulosa de emissão que surge nos céus brasileiros durante o verão, aparecendo logo depois da Constelação de Órion, na Constelação do Unicórnio. Esta nebulosa é bastante brilhante em fotografias, mas pouco visível ao telescópio, sendo muito mais fácil visualizar o aglomerado estelar aberto NGC 2244, que energiza a nebulosa a partir de seu centro, visível até mesmo com binóculos.

A grande nuvem de hidrogênio é mais formalmente reconhecida pelo sua catalogação do Caldwell, com o número 49, mas é mais informalmente reconhecida pela sua associação com o aglomerado estelar NGC 2244. Na verdade, vários objetos NGC compõem o que chamamos de Grande Complexo Nebular Roseta, formado pelos objetos NGC 2237, NGC 2238, NGC 2238 e NGC 2246.

A Nebulosa Roseta está a cerca de cinco mil anos-luz da Terra e possui cerca de 130 anos-luz de diâmetro. Para efeito de comparação, isso é aproximadamente o dobro do comprimento da Nebulosa da Lagoa, que está numa distância parecida, embora em posição oposta. Seu diâmetro aparente (o tamanho que vemos da Terra) é cerca de duas vezes o diâmetro aparente da Lua.

A Nebulosa Roseta esta localizada entre os chamados braço de Orion (onde está a Terra) e de Perseus, da Via Láctea. O Braço de Perseus é considerado o braço principal da Via Láctea. Ele sai do núcleo galáctico do outro lado da Via Láctea e passa atrás da Terra deste lado da Via Láctea. Estudos apontam que o Braço de Orion, onde Nebulosa de Orion e a própria Terra estão localizado, na verdade seria uma ramificação do braço de Perseus, mas isso ainda não está confirmado.


A cinco mil anos da Terra, a Nebulosa Roseta está entre os braços Galácticos de Orion e Perseus. O Sol está do lado interno do Braço de Orion, virado para o Braço de Sagitário (imagem:http://www.atlasoftheuniverse.com/).


Eu já visitei a Nebulosa da Roseta algumas vezes, nas mais variadas formas, com os mais variados tipos de equipamentos. É um objeto ótimo para se registrar tanto em Hubble Palette como em cores Naturais. A imagem do alto do post foi feita com a câmera QHY163 monocromática que comprei no primeiro semestre de 2017, mas acredito que só agora, em 2018, vou começar a aproveitar a câmera para valer. Para esta imagem, foram registrados 51 frames de 3 minutos com filtro H-alpha e mais 6 frames de três minutos para cada um dos outros dois filtros, Oxigênio III e Enxofre II.

Em todos os frames eu utilizei binning 2x2. Binning é quando você agrupa pixels da câmera para simular pixels maiores e assim conseguir mais sensibilidade. Isso incorre na diminuição da resolução. Mas para mim é a maior vantagem de se ter uma câmera com grande resolução e uma sensor maior. Com o Binning 2x2, eu faço os pixels da QHY163m ficarem grandes como o da Atik 314L+, minha outra câmera, mas ainda consigo quatro megapixels, uma resolução quatro vezes maior do que conseguiria com a Atik 314L+. Um bining 2x2 quer dizer que a cada 2 pixels horizontais e dois verticais, teremos um único pixel, mas duas vezes maior. Se o binning for 3x3, seriam 3 pixels verticais e 3 horizontais. Mas assim a resolução diminuiria em 9 vezes, o que tiraria muito da resolução da QHY163m, que na verdade, só permite binning de no máximo 2x2.

Este crop da imagem acima destaca os glóbulos de Bok da Nebulosa Roseta próximos a nuvens de poeira.

Esta "montanha" de hidrogênio é outra área de destaque da Nebulosa Roseta. Ela lembra montanhas que já vimos nas nebulosas América do Norte e Pelicano, entre outras.

 Como toda nebulosa de emissão, a Nebulosa Roseta em cores naturais é vermelha, apresentando traços em azul principalmente em seu interior. Sua forma, quando vista em cores naturais, reforça o apelido da nebulosa, que realmente lembra um grande botão de rosa flutuando por trás das estrelas. A Nebulosa está se espalhando do centro para fora, criando ondas de choque com as regiões em volta, que comprimem as nuvens de gás e geram formações como a da imagem logo acima. A Nebulosa Roseta tem um aspecto que lembra um pouco as nebulosas planetárias, mas sua extensão é muito maior do que o tamanho típico de uma planetária, sendo uma nebulosa com natureza semelhante a nebulosas como a da Lagoa (M8), por exemplo.

Nebulosa Roseta registrada em cores naturais. Composição de registro em H-alpha feito com câmera monocromática Atik 314L+ e cores capturadas com câmera DSLR Canon T2i, ambas com a lente Canon 200mm EF 2.8 USM II.

Registro feito somente com DSLR Canon T2i, lente de 200mm F2.8 e Ioptron Skytracker. Um setup bastante portátil que levei para chácara no Natal de 2016.




terça-feira, 28 de novembro de 2017

Blue Head Horse - Reprocessamento de uma captura problemática.



A Cabeça do Cavalo azul é uma nebulosa de reflexão das mais difíceis de se registrar. Bastante pálida e inacessível a filtros de banda estreita. Como acontece com as galáxias mais pálidas, é necessário deslocar-se para regiões escuras, como fazendas isoladas, para um bom registro. A Nebulosa está localizada próxima à cabeça do Escorpião, sendo visível principalmente durante o inverno. Apesar disso, não é um alvo muito comum entre os astrofotógrafos durante os encontros de Astrofotografia, por dois motivos, primeiro, mal aparece nos single frames, como você pode ver na imagem final do post, o que pode desanimar um pouco os astrofotógrafos. Mas acredito que a principal razão é pela nebulosa ter uma tamanho aparente muito grande, sendo um objeto ideal para fotografia com lentes. A imagem do post foi feita com uma lente de 135mm. Como a maioria dos Astrofotógrafos utiliza telescópios nestes encontros, são poucos os que tem equipamento adequado para o registro, como o Carlos Fairbairn, que já fez ótimos registros da nebulosa.

Eu tinha uma boa captura da Cabeça do Cavalo Azul. 36 frames de 3 minutos feitos com a lente de 135mm e Canon T2i no longínquo ano de 2014. Bem, boa captura entre aspas. Apesar do bom tempo de exposição total, com quase duas horas; dos frames estarem numa boa duração, em ISO 800 e das estrelas estarem redondas, os frames apresentaram problemas bastante difíceis de lidar: escurecimento na parte inferior e uma mancha rosada na parte esquerda inferior. Esse problema esteve em praticamente todas as capturas com DSLR daquele EBA, me fazendo pensar que, a minha Canon T2i havia chegado ao fim precocemente. Mas, após aquele evento, analisei que talvez o intervalo entre os frames, de cerca de 15 segundos para lightframes de 3 minutos, talvez tivesse sido muito curto. Logo, desde aquela época, tenho ajustado intervalos bem mais longos entre os frames de captura. Na opinião de alguns colegas astrofotógrafos, talvez até um pouco demais. Hoje, para frames de 3 minutos, numa câmera sem resfriamento, os intervalos que eu daria para o sensor esfriar seriam provavelmente de um minuto.

Não sei se os intervalos que tenho dado em minha captura estão exagerados. Sinceramente, não sei se havia alguma outra coisa afetando a captura naquela época, mas, desde que aumentei o tempo dos intervalos entre os frames, problemas assim nunca mais apareceram.

Abaixo, vemos um single frame da captura que gerou a imagem da Cabeça do Cavalo Azul. Nela percebemos alguns detalhes suaves da Nebulosa, que depois seriam realçados, com o filtro mínimo, para diminuição das estrelas; aumento da saturação; e "Ajuste Automático de Cores", no Adobe Photoshop. O processamento final bem que poderia ser um pouco mais cuidadoso, evitando-se estourar as estrelas da nebulosa vizinha, Rho Ophiuchi. O problema, devo admitir, é a falta de tempo, mas com o fim da produção de meu livro de fotos "O Viajante Espacial", que deve ser publicado mês que vem, eu devo ficar mais tranquilo, até por que o ano de 2018 está cheio de projetos, que eu devo falar no próximo Post.

Frame única da captura do Post, como aparecia na câmera.



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Os Girinos Cósmicos



Essa época do ano costuma ser uma das piores para fotografar, por isso, quando tempos uma noite aberta, ainda mais sem Lua, costuma ser uma oportunidade de ouro para capturarmos nebulosas que há muito tempo queremos registrar e as nuvens sempre atrapalham. Mas também pode ser uma época interessante para descobrirmos novos objetos no céu, ou mesmo, como no caso da imagem deste post, descobrir que é possível registrar nebulosas que imaginávamos estarem além do nosso alcance.

Na noite do feriado de 12 de outubro, eu percebi que poderia apontar meu telescópio, mesmo da varanda do meu apartamento, para algumas nebulosas interessantes no norte. O alvo que me parecia mais interessante era a nebulosa Flaming Star, catalogada como IC405.
Eu já tinha apontando o telescópio para Flaming Star quando notei que bem ao lado daquela nebulosa estava um dos objetos que eu acho mais interessantes no céu e que eu acreditava não ser possível fotografar do Brasil, muito menos de meu apartamento. 

Trata-se da Nebulosa do Girinos, catalogada como IC410. Acho que o nome não é muito popular no Brasil. Parece meio sem glamour, eu acredito, mas em inglês ela é conhecida como Tadpole Nebula, cuja tradução é girino. Acho que outra opção que teríamos é chama-lás de Nebulosa dos Espermatozóides. O problema é que daí não demorariam a encurtar o nome da nebulosa, que logo viraria Nebulosa do Esperma. Talvez seja melhor deixar como dos Girinos mesmo.

Apesar do céu estar bem aberto nos dias do registro, as condições estavam longe de serem as ideais. Devido à seca pela qual Brasília está passando, havia muita poeira e fumaça na atmosfera e isso acaba espalhando ainda mais a intensa poluição luminosa que enfrento da varanda de meu apartamento. Mais uma vez o sensor maior da QHY163m conversou com dificuldades com a poluição luminosa da varanda do meu apartamento e eu vejo que esta câmera é mais adequada para ser usada durante os encontros em fazendas, enquanto a Atik314L+  parece melhor para o apartamento.

De qualquer forma, capturar IC410 foi uma grande alegria. Mesmo com os defeitos da imagem, eu não lembro de outro astrofotógrafo brasileiro ter feito esta captura, o que é um grande orgulho.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Comparando a QHY163m com a Atik314L+ - Foi a nova câmera um Upgrade relevante?

Ômega Centauri com QHY163m - Tempo total de exposição: 36 minutos - 8 frames de 90 segundos em Bin 2x2 para cada cor.





Ômega Centauri com Atik314L+ - Tempo total de exposição: 2 horas e 40  minutos - 20 frames de 5 minutos de luminância e 4 frames de 5 minutos em Bin 1x1 para cada cor.

Já fazem alguns meses que estou com a minha nova câmera astronômica monocromática QHY163m, que, com seus 16 megapixels de resolução, veio "substituir" a Atik 314L+, com somente 1,3 megapixels, mas que tantas alegrias me deu nos últimos anos. Adquirida no início de maio e recebida no inicio de junho, não usei a QHY163m tanto quanto eu gostaria, mas já posso ter uma boa ideia do desempenho dela em relação à Atik 314L+.

Primeiro, devo dizer algo sobre a Atik 314L+. Se, em termos de resolução, seus 1,3 megapixels deixavam ela atrás das câmeras com sensores maiores, trabalhar com a QHY163m provou que eu estava completamente certo quanto aos motivos que me fizeram adquirir a Atik 314L+ a época. Sim, trabalhar com uma câmera com sensor pequeno como o 2/3 polegadas da Atik 314L+ traz alguns problemas. É mais difícil apontar e enquadrar o objeto, deve-se tomar cuidado principalmente quando se troca de filtros, ainda mais em capturas feitas em mais de uma sessão, para se perder o mínimo de campo possível. Qualquer movimento do telescópio, na hora da troca de filtro, pode incorrer em perda de uma proporção considerável de campo na Atik 314L+. Com a QHY163m é mais fácil achar os objetos e o seu grande sensor de 4/3 polegadas aceita melhor alguma perda de campo.

Mas com um sensor menor, a Atik 314L+ se adaptou imediatamente a todo o meu econômico setup astronômico, sejam os tubos ópticos ou acessórios de 1,25 polegadas. Não houve necessidade de adquirir filtros maiores (e bem mais caros) nem aplanadores ou corretores de coma. Telescópios imperfeitos como os que possuo costumam realçar suas deficiências nas bordas da imagem. No centro, as aberrações são quase imperceptíveis. Poder usar a Atik 314L+ por muitos anos sem ter gastos adicionais foi uma tremenda vantagem.

Mas não é só pelo equipamento que uma câmera com sensor maior traz dificuldades. A óptica do telescópio pode ser corrigida com acessórios e os filtros de 1,25 polegadas estão dando uma vinhetagem muito leve na QHY163m, facilmente corrigida por flatframes. Entretanto, uma câmera com sensor maior também sofre mais com poluição luminosa. A vinhetagem e o gradiente que recebo em meu apartamento, numa área densa em Brasília, era praticamente irrelevante com a Atik 314L+ quando com filtros de banda estreita. Com a QHY163m, eu estou tendo um pouco mais de dificuldades na hora de processar as imagens de capturas feitas em meu apartamento, mesmo capturadas com filtros de banda estreita.

Lidar com arquivos maiores também foi uma adaptação difícil pra mim. Como esperado, os arquivos de 16 megapixels da QHY163m levam mais tempo para carregar do que os de 1,3 megapixels da Atik314L+. Sim, a QHY tem entrada USB3.0, show de bola, mas os arquivos são quase 16 vezes maiores. E a porta USB3.0 do meu notebook não consegue compensar isso. Essa maior demora no carregamento dos arquivos não faz muita diferença quando já estamos registrando os lightframes, que podem durar vários minutos. Esperar dez segundos de download entre um lightframe e outro não é um grande sacrifício. Mas quando estamos fazendo os ajustes de foco, enquadramento, entre outras coisas, essa maior demora começa a desgastar a paciência. Até por que, nos softwares que utilizei, a QHY163m só faz Binning 2x2, fazendo uma imagem com ainda quatro megapixels de tamanho mesmo para uma prévia, enquanto a Atik 314L+ faz até Binning 8x8. Na hora dos ajustes de imagem eu sinto muitas saudades dos arquivos pequenos da Atik 314L+, que carregavam em um segundo.

Mas vale dizer, estes inconvenientes citados são todos devidos a uma característica superior da QHY163m. Agora os problemas verdadeiros: provavelmente por ser uma câmera com sensor CMOS, a QHY163 apresenta um tipo de defeito em imagens integradas que eu nunca vi na Atik314L+, mas já tinha percebido algumas vezes na Canon T2i e em imagens de outros astrofotógrafos que utilizaram câmeras com sensor CMOS. O resultado da integração apresenta linhas de ruídos inclinadas, como você pode perceber na imagem abaixo, crop de uma captura de NGC 6188 também feita no 10°EBA. Eu não sei o que causa isso. Não aparece em todas as imagens e é pouco perceptível. Ainda não fiz um estudo sobre este problema e se alguém quiser colaborar, sinta-se a vontade. Não é algo que destrói a imagem, mas exige um certo cuidado durante o processamento.

Repare nas linhas inclinadas para a esquerda neste crop de um lightframe da QHY163m

Mas o que tem incomodado mesmo na QHY163m é o tal do Amplifier Glow. Uma mania de sensores do tipo CMOS (a Atik usa um sensor CCD) de deixarem partes da imagem mais claras do que outras. Num primeiro momento, pode até ser confundido com vinhetagem ou gradiente na imagem, que geralmente é causada por luzes parasitas na óptica e deve ser tirado com Flat Frames. Mas é algo que está no sensor da câmera e não na óptica. Por isso, tem de ser tirado com Dark Frames. Sendo assim, pelo que tenho visto, enquanto é possível astrofotografar com uma câmera CCD como a Atik 314L+ sem dark frames, com uma CMOS, Dark Frames são obrigatórios.

Amplifier Glow (região mais clara a direita) em single frame da Nebulosa do Camarão.
O grande problema que estou tendo com o Amplifier Glow é que, com o ganho da QHY163m em zero, o Amplifier Glow sai facilmente com os dark frames, mas quando elevo o ganho para 30 (o ajuste vai até 60), o resultado da integração, mesmo com dark frames, é prejudicado. Tanto que os registros que fiz com esse nível de ganho não ficaram, digamos, publicáveis. Isso acaba tirando uma das vantagens que eu esperava desta câmera em relação à Atik 314L+, que era fazer frames curtos com ganho elevado, integrar muitos deles e conseguir imagens que só conseguiria com frames muito longos com a Atik 314L+.

Após tantos comentários negativos, pode até parecer que a conclusão foi que a QHY163m não foi um bom upgrade em relação a Atik 314L+. Mas não é o que acontece. Os problemas causados pelo sensor maior são todos decorrentes de estar usando um equipamento superior, que exige uma óptica melhor e um céu em melhores condições. É o preço que se paga por ter um equipamento de maior capacidade. Com seus 16 megapixels de resolução, a QHY163 produz imagens muito mais nítidas, com estrelas menores e maior campo do que a Atik 314L+. Quanto a seus defeitos reais. Eles são contornáveis. Darks e Flat frames podem tirar quase todos os defeitos dos lightframes. E recursos simples do Fitswork removem quase todos os problemas ópticos restantes. Sim, não estou conseguindo usar ganhos maiores, mas mesmo no menor ganho a câmera apresenta excelente sensibilidade. Além disso, ganho é algo meio relativo em astrofotografia de céu profundo, já que no fim teremos que ajustar os níveis da imagem integrada, geralmente bem escura.

Para mim, a maior prova do avanço da QHY163m em relação a Atik 314L+ está no fato de que estou finalmente produzindo meu primeiro livro de fotos e basicamente todas as imagens que eu fiz com a QHY163m substituíram registros feitos com a Atik 31L+, por apresentarem fotos mais bonitas e ficarem melhores no formato A4 que o livro vai ter. E olha que em muitos casos foram registros com a QHY163 que tinham uma fração do tempo de exposição da Atik 314L+, como o do Aglomerado Globular NGC 5139, no alto deste post. Isso mostra que o upgrade valeu muito a pena.

Mas a QHY163m não vai me fazer vender a Atik314L+. Se a foto da QHY163m fica mais nítida e bonita que a da Atik314L, quando olhamos os objetos mais de perto e analisamos os detalhes capturados pelas duas câmeras, a Atik314L+ me parece ser capaz de uma imagem mais definida. Para galáxias de menor campo, que caibam com sobras no sensor desta câmera, acho que a Atik 314L+ permanecerá imbatível.

Onde a QHY163 me parece surpreender mais é nas imagens em RGB. Imagens em cores naturais nunca foram o ponto forte da Atik 314L+ e eu já estou começando a ficar um pouco saturado de imagens em Hubble Palette. Então, no próximo EBA devo tentar explorar ao máximo a capacidade da QHY163m e focar em objetos diferentes das nebulosas de emissão, como galáxias, campos estelares, nebulosas escuras ou de reflexão. O resultados de amigos que estão utilizando esta câmera para fotos RGB têm mostrado isso.

Este é um post baseado em opiniões pessoais, de quem está constantemente aprendendo. Por isso, não se assuste se, no futuro, algumas opiniões mudarem. Pode acontecer de, por exemplo, que eu consiga resolver a questão de usar ganhos elevados com a QHY163m, o que seria muito interessante.


Nebulosa da Lagosta registrada no EBA de 2017, com a QHY163m em refrator de 102mm

Nebulosa da Lagosta, registrada com a Atik314L+, com o mesmo telescópio refrator.


terça-feira, 4 de julho de 2017

13 coisas para se saber sobre a Astrofotografia de Banda Estreita e o Hubble Palette.

Nebulosa América do Norte, capturada com filtros de banda estreita e composta na técnica chamada Hubble Palette.


Em 2012, quando me mudei para um apartamento na cidade satélite mais densamente povoada de Brasília, chamada Águas Claras, eu estava decidido a morar num cobertura, para continuar praticando meu hobby favorito, a Astrofotografia. Num primeiro momento, devido à grande poluição luminosa da região, eu acreditava que estaria limitado à fotografia solar, lunar ou planetária, mas foi então que descobri a astrofotografia de banda estreita, com a técnica de processamento chamada Hubble Palette. 

Com filtros de banda estreita e uma câmera astronômica monocromática é possível fotografar de áreas urbanas nebulosas de emissão que seriam difíceis para câmeras DSLRs mesmo nos locais mais escuros. Infelizmente, com estes filtros acabamos registrando não exatamente a cor dos objetos. É aí que entra o Hubble Palette, que com suas cores nos mostra uma visão totalmente nova das nebulosas de emissão, proporcionando um contraste e profundidade únicos. É por isso que as fotos do Hubble usam está técnica, com filtros H-alpha, Oxigênio 3 (OIII) e Enxofre 2 (SII), que tornam-se respectivamente, os canais verde, azul e vermelho.

Então, após cinco anos de experiência com o Hubble Palette, tendo bons e maus momentos com a técnica, escrevo este post, mostrando o que aprendi sobre astrofotografia de banda estreita neste período e o que você precisa saber  se está pensando em astrofotografar com esta técnica:

  1. Astrofotografia de banda estreita é para câmeras monocromáticas: embora seja possível o uso com câmeras coloridas, a única diferença que você verá ao utilizar filtros de banda estreita com câmeras coloridas será nas cores do Hubble Palette e na redução das estrelas, mas nem de longe terá a qualidade de definição das nebulosas que uma câmera monocromática com filtros de banda estreita permite, além de produzir uma quantidade de ruído um pouco além da conta.
  2. Astrofotografia de banda estreita pode ser feita em regiões de grande poluição luminosa: essa é uma das maiores vantagens da astrofotografia de banda estreita. Como os filtros deixam passar somente uma faixa específica de luz, é possível tirar grande parte da poluição luminosa com a utilização destes filtros. É por isso que fotografo tanto de meu apartamento em Brasília com filtros de banda estreita.
  3. Astrofotografia de banda estreita pode ser feita durante a Lua Cheia: como elimina quase todo a poluição luminosa, nem mesmo a lua cheia afugenta o astrofotógrafo armado com uma câmera monocromática e filtros de banda estreita. A nebulosa de emissão registrada só não pode estar próxima demais da Lua. É aconselhável que esteja algo em torno de 30 graus afastado dela. Geralmente, quando a Lua está cheia, eu procuro objetos mais ao norte ou ao sul da esfera celeste.
  4. Astrofotografia de banda estreita é para nebulosas de emissão: Essa é uma das maiores limitações da astrofotografia de banda estreita. Ela não serve para galáxias, aglomerados estelares, nebulosas de reflexão e outros objetos que não sejam as nebulosas vermelhas de hidrogênio. Felizmente, estes objetos estão entre os mais espetaculares do céu e estão em grande número, garantindo anos de diversão para o astrofotógrado dedicado.
  5. O filtro H-alpha pode ser usado para realçar nebulosas de emissão em galáxias: não dá para fazer um Hubble Palette de uma galáxia e nem fazer luminance destes objetos com filtros de banda estreita, mas você pode usar o H-alpha para realçar as nebulosas de galáxias mais próximas, como Andrômeda e Triângulo.
    Galáxia de Andrômeda, registrada com filtros RGB e complementada com filtros H-alpha para realçar as nebulosas de emissão (vermelhas). Imagem Giuliano Pinazzi.
  6.  Telescópios refratores mais simples podem ser usados em astrofotografia de banda estreita: uma é uma das características inusitadas das capturas em banda estreita, elas são bastante tolerantes com telescópios que apresentem grande aberração cromática, já que a faixa de luz que eles capturam é muito restrita, não produzindo desvios significativos. Mas é preciso prestar atenção em duas questões: isso não vale para outras aberrações, como coma e curvatura de campo, e também faz com que seja necessário ajustar o foco a cada troca de filtro, pois cada filtro de banda estreita terá um ponto focal diferente. Dependendo do telescópio (se for muito ruim) a diferença pode ser bem grande.
  7. Astrofotografia de banda estreita é mais fácil do que a Astrofotografia com câmeras monocromáticas em RGB: Ok, isso é uma opinião bastante pessoal. Pode até ser pelo fato de que como fotografo muito em banda estreita eu tenha mais prática nesta técnica do que na fotografia em RGB. Mas vejamos: ao se registrar em Hubble Palette você não precisa se preocupar com fidelidade das cores, afinal, a liberdade é muito maior. As estrelas já aparecem muito pequenas, enquanto em registros com filtros RGB elas podem ficar enormes, principalmente em áreas com muitas estrelas, como na Constelação do Cisne. É até um pouco menos difícil quando o H-alpha é o luminance de uma captura H-alphaRGB, mas ainda assim, este tipo de captura impõe vários desafios, dependendo do objeto registrado, e não funciona com toda nebulosa (Por exemplo, Trífida-M20).
  8.  O H-alpha pode ser usado para fotos RGB: como dito no item anterior, podemos fotografar nebulosas com filtros de banda estreita com suas cores naturais, usando o H-Alpha como luminância ou simplesmente mesclando o filtro com a imagem RGB, para termos nebulosas de emissão com muito mais detalhes e em suas cores naturais.
  9. O H-alpha é sempre a luminancia em imagens de Hubble Palette: A verdade é que nesta técnica os filtros de Oxigênio e Enxofre basicamente têm a função de dar cores. Você pode até mesclar as imagens e criar uma imagem com a luminância a partir das três cores, mas criar a imagem de cor e depois juntar com o H-alpha como luminância gera um resultado muito superior;
  10.  Após a composição das cores do Hubble Palette o resultado é geralmente uma imagem verde: como o H-alpha é o filtro dominante na captura com filtros H-alpha, OIII e SII, não fique surpreso se, na hora de juntar os canais, a imagem ficar muito verde. São necessários alguns passos para dar à imagem aquelas cores amarelas e azuis que estamos acostumados a ver em sites de Astrofotografia. É necessário aplicar os passos indicados neste site
  11. O Hubble Palette funciona melhor em nebulosas de emissão com grande presença de oxigênio: nem toda nebulosa de emissão vai ficar maravilhosa no Hubble Palette, algumas têm bem pouco oxigênio e por isso é difícil conseguir alguma coisa com o filtro OIII, que irá gerar a cor azul. É interessante também lembrar que a emissão do OIII é a mais visível ao olho humano, por isso, as nebulosas de emissão que conseguimos ver bem quando usamos telescópios ou binóculos para observar o céu, são também as melhores para se registrar no Hubble Palette.
    Nebulosa da Lagosta. Nesta nebulosa de emissão há pouca emissão de OIII, o que impede uma imagem com o constraste que vimos no registro do início do post.
  12. Com os filtros do Hubble Palette, se você deixar o H-alpha vermelho irá criar uma imagem muito parecida com a imagem com cores originais: se estiver fotografando num céu com muita poluição luminosa,e não gostar do Hubble Palette, você pode usar os filtros H-alpha, OIII e SII para fazer uma imagem semelhante àquela com cores originais. Não ficará exatamente igual, principalmente estrelas e áreas de reflexão, ainda assim, ficará próximo à imagem com cores originais. Só não deixe de informar na descrição de imagem que, apesar da semelhança, trata-se de uma captura com cores falsas.
  13. O Hasta La Vista Green pode ser usado para tirar o Magenta das estrelas: isso foi algo que descobri recentemente. Quando juntamos os canais de cor da captura de banda estreita com o Hubble Palette é comum que as estrelas fiquem todas com uma cor rosada (magenta). Há uma forma rápida de tirar este magenta e deixar as estrelas com cores diferentes, o que fica muito bom. Basta inverter as cores da imagem final e aplicar o Hasta La Vista Green na imagem, que as estrelas mudam completamente.
É isso aí pessoal. Espero que tenham gostado do post. Talvez tenham surgido dúvidas devido à quantidade de termos técnicos utilizada. Para quem se sentiu meio confuso, lembro que o Astrofotografia Prática já está a venda tanto na versão impressa como digital e é uma excelente leitura para quem quer iniciar na Astrofotografia Amadora.

Um grande abraço,
Rodrigo





sábado, 17 de junho de 2017

Primeira imagem com a QHY163

Nebulosa da Lagoa, capturada com a QHY163m no refrator de 102mm. Foram 36 frames de 2 minutos com filtro H-alpha e 10 frames de dois minutos para os filtros de Oxigênio 3 e Enxofre 2. Composição em Hubble Palette.

Finalmente chegaram as câmeras QHY163m e QHY5III-224c que adquiri no Tellescopio.com. Ou melhor, na verdade elas chegaram bem antes do que eu esperava. O site dizia que faria as encomendas no dia 31 de maio. E como as câmeras viriam da China, eu esperava, na mais otimista das expectativas, que elas chegassem no meio de julho, antes do Encontro Brasileiro de Astrofotografia. Quando recebi a mensagem, dia 9 de junho, de que as câmeras estavam sendo preparadas para envio, foi uma tremenda surpresa.

As câmeras chegaram na terça e eu já comecei a utilizá-las na quarta-feira. De cara percebi uma desvantagem das QHY em relação aos modelos da ZWO. Enquanto as ZWO já eram encontradas pelos softwares que utilizo, as QHY precisam mais de um sistema chamado de ASCOM para conversarem com softwares astronômicos. Num primeiro momento eu fiquei meio chateado. Sempre achei que trabalhar com ASCOM era coisa para engenheiros e a documentação existente na internet não ajuda muito. Felizmente, descobri que é muito mais simples do que eu pensava. Fuçar um pouco já resolveu o problema. Você precisa apenas, instalar os drivers da câmera, encontrar os drivers no ASCOM, como se estivesse abrindo a câmera num software de captura, e depois disso basta selecionar a "câmera" ASCOM no software de captura. O software até vai perguntar qual câmera eu quero conectar. Isso aconteceu comigo por que tenho duas câmeras QHY conectadas ao mesmo tempo.

Como diz o José Carlos Diniz, as câmeras astronômicas com sensores CMOS são bichos diferentes das câmeras com sensor CCD. A principal diferença que vemos logo de cara são as opções de ajuste de Ganho e Offset. O ajuste de ganho é bastante claro, equivale ao ajuste de ISO das câmeras DSLR que conhecemos. Já o ajuste de OFFset está relacionado com o ajuste do nível da cor preta. Eu entendo mais do ganho. Sei que mais ganho gera mais ruído, mas permite frames mais curtos e uma maior quantidade de frames pode compensar o maior ruído. Mas selecionar os melhores valores para estes ajustes pode afetar o Range Dinâmico da câmera. Pelo que vi, valores maiores são interessantes para objetos muito pálidos e de brilho uniforme, como nebulosas de emissão extensas, mas para nebulosas com muita variedade de brilho, como a Nebulosa da Lagoa, de Orion, ou Galáxias, que têm um núcleo muito mais brilhantes que o resto do corpo, um maior ganho e mais OFFset pode gerar imagens estouradas (o OFFset também afeta o range dinâmico). Desculpem se falei besteira, mais para frente quero entrar mais a fundo neste assunto, que gera dúvidas até entre astrofotógrafos mais experientes. Felizmente, a QHY163 já veio com um preset de ganho e OFFset para céu profundo e podemos utilizar estes parâmetros pré-definidos. Mesmo assim eu aumentei um pouco o ganho para 30, o que provavelmente gerou o estouro do núcleo da Nebulosa da Lagoa na imagem do início do post.

Eu já tinha utilizado uma câmera astronômica resfriada com sensor CMOS, a ASI174. E agora com a QHY163 percebo que nestas câmeras é normal que determinadas regiões apresentem clareamento de áreas do sensor. Esse clareamento é chamado de Amplifier Glow e pode ser totalmente retirado com o uso de Dark Frames. A ATIK314L+ nunca apresentou este tipo de alteração nos frames. Então, se na Atik 314L+ eu podia até dispensar dark frames, em câmeras CMOS eles são obrigatórios.

Depois de tanto tempo com o pequeno sensor 2/3 de polegada da ATIK314L+, ter uma câmera com sensor 4/3 de polegada (o dobro da diagonal e 4 vezes mais área) é algo maravilhoso. É muito mais fácil encontrar e enquadrar os objetos e a perda de campo na troca de filtros não causa arrepios. Mas algo que me preocupa com a QHY163 é em relação à vinhetagem. A câmera tem um sensor praticamente do tamanho do diâmetro de um filtro de 1,25 polegadas. Na imagem que vemos acima eu fiquei na dúvida se houve ou não vinhetagem. As bordas estão um pouco mais escuras do que o resto da imagem. Mas também estão azuis. Os flat frames mostraram vinhetagem bem nos cantos da imagem, mas que pode ser totalmente retirada com a aplicação destes frames de calibração. A verdade é que se o setup apresentar vinhetagem na imagem final, eu vou conviver com isso por um bom tempo, pois filtros de 2 polegadas são muito mais caros do que os de 1,25 polegadas e repor todo meu conjunto de filtros, RGB, IR/UV Cut e banda estreita, além da roda de filtros, pode custar um bom dinheiro.

A imagem acima não teve uma captura perfeita porque eu estava com pressa de ter uma experiência completa com a nova câmera. Não quis perder tempo com alinhamento e a guiagem, feita com a também nova QHY5-III 224c não aguentaria mais do que dois minutos por frame sem deixar rastros. Mas o relaxo mesmo foi no foco. O software que eu utilizei foi o EZcap, desenvolvido pela própria QHY e ele tem a função de assistente de foco, mas nem me dei ao trabalho de usar.

Apesar de tudo, fico muito feliz com essa primeira imagem e tenho certeza de que, com mais apuro, imagens fantásticas estão por vir.

Abaixo, algumas imagens interessantes que mostram as características do setup utilizado:

Flat frame feito com a QHY163 com roda de filtros de 1,25 polegadas mostra leve vinhetagem nas bordas da captura, provocado pelos filtros praticamente do tamanho do sensor.

Dark frame (com aumento de brilho) mostra áreas mais claras na imagem, efeito chamado de Amplifier Glow. A câmera estava com sensor em temperatura de cerca de zero grau

Light frame H-alpha (com brilho aumentado) mostra como áreas mais claras aparecem, mas serão eliminadas com a aplicação dos darks.

Canal H-alpha com integração de 36 light frames, 10 darks e 30 flats.
Setup utilizado na captura. Vemos a QHY163 no telescópio principal, com roda de filtros de 1,25 polegadas, o aplanador de campo da Orion à frente da roda de filtros. Também vemos a QHY5III-224 com lente Nikon de 135mm F2.8 como telescópio de guiagem. A montagem é a HEQ5 da SkyWatcher.




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Nebulosa da Roseta em três visões


Como eu já disse um milhão de vezes, esta época do ano é sempre complicada para astrofotografia, devido às chuvas. Mas às vezes o céu abre, ou pelo menos finge que abre, e mesmo com nuvens ralas sobre meu apartamento, em Brasília, ou na chácara onde meus pais moram, em Uberlândia, consigo fazer algumas imagens interessantes.

Quem me acompanha há mais tempo, sabe que eu adoro combinar imagens de câmeras diferentes, principalmente cores com luminance. Faço isso desde que descobri o Software Fitswork e seus inúmeros recursos. 

Em dezembro fiz uma interessante captura da Nebulosa da Roseta, quando estive na chácara para as festas de fim de ano. Foram 64 frames de 40 segundos de exposição. O tempo limitado por frame foi devido a eu estar usando o Ioptron Skytracker e ter esquecido de levar a buscadora polar. Se tivesse levado, talvez conseguisse pelo menos um minuto por frame, com a lente Canon Ef 200mm F/2.8l Ii Usm, usada na captura. A câmera foi a boa Canon T2i modificada, velha de guerra.


Nebulosa da Roseta, capturada no último dia de 2016, na chácara onde moram meus pais. com lente de 200mm Canon USMII EF 2.8, Canon T2i e montagem Ioptron Skytracker.

Ao voltar pra Brasília, tive a chance de, da varanda de meu apartamento, capturar 28 frames de 5 minutos com o filtro H-alpha, na câmera Atik 314L+. Para isso, usei a mesma lente de 200mm e a montagem HEQ5 da Sky-Watcher, que me permitiram frames mais longos. O resultado desta combinação você vê abaixo. Repare que o campo está limitado pelo sensor da Atik, bem menor do que o da Canon. Nesta imagem, o H-alpha faz o papel de Luminance e a captura da Canon dá somente as cores ao registro.


Nebulosa da Roseta, com adição de H-alpha capturado com a Atik 314L+ e a mesma lente de 200mm.



Mas eu também tinha um registro em Hubble Palette de 2015, feito com a já vendida lente 200mm FD. Esse registro, em alguns aspectos é até superior ao atual, onde eu errei no foco do H-alpha, mas naquela captura eu não fiz flat frames, o que prejudicou o resultado final, principalmente o céu de fundo, que ficou repleto de manchas, me forçando a escurecer demais o fundo. Nesta nova captura, o fundo está muito mais uniforme. Neste caso, a imagem de 2015 serviu não apenas para dar cores, mas também para melhorar a definição do núcleo da Nebulosa, com o recurso de Mosaico do Fitswork.




As chuvas devem continuar em Brasília e deve demorar um pouco para pararem, mas eu nem estou com pressa. Com a represa que alimenta meu bairro secando, prefiro ficam uns tempos sem fotografar do que ficar sem água, ou que pelo menos chova muito no meio de semana e o céu abra sábado à noite, o melhor dia para fotografar, quando não preciso dormir e nem acordar cedo.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Grandes Expectativas para 2017

2017 está começando. Como sempre, nesta época do ano, as chuvas dominam a paisagem. Eu também não ando tão ativo como gostaria. Perto dos quarenta anos de idade, com uma filha para dar atenção, um complexo livro para terminar, e o emprego que me sustenta exigindo cada vez mais, muitas vezes não encontro tempo ou energia que gostaria para astrofotografar. Apesar disso, este ano é de grandes expectativas para mim no ramo da astrofotografia. São muitos os projetos que tenho em mente.

Veja abaixo, o que espero para o ano de 2017.

1 - Finalmente publicar o livro de Astrofotografia: para alguns pode até parecer que este projeto esfriou, mas a boa notícia é que isso nunca aconteceu. O que realmente acontece é que o processo de revisão foi muito mais denso e difícil do que eu esperava. Após finalizar a primeira versão do livro, encontrei uma série de problemas de coerência, erros de digitação e trechos que não ficaram bem escritos. Além disso, muitas vezes, quando se corrige um erro, aparecem outros, principalmente de digitação. O livro foi revisado três vezes, mas agora finalmente estou com uma cópia impressa, corrigindo erros bastante pontuais e vejo que todo o trabalho está começando a valer a pena. Percebo que ler o texto que escrevi é uma tarefa agradável, o que me deixa feliz. Tenho praticamente certeza de que, este ano, finalmente publicarei o livro.

2 - Ver o eclipse solar total nos Estados Unidos: depois do livro, este é o projeto que mais me empolga. Finalmente vou ter a oportunidade de ver um eclipse solar total, ver o céu ficar escuro no meio do dia, ver a coroa solar. Isso será em agosto e estarei acompanhando o pessoal do CASB no dia do evento. Acredito que vai ser uma experiência incrível, mas também tensa. Eu não tenho nenhuma experiência em fotografar eclipses solares e terei pouco mais de dois minutos para fazer imagens. Por isso preciso estudar e me preparar muito até lá.

Chamado de "The Great American Eclipse", o eclipse solar de agosto de 2017 vai cruzar o território dos Estados Unidos da Costa Oeste à Leste.


3 - Fazer muitas fotos planetária: A fotografia planetária tornou-se muito mais interessante para mim depois que adquiri um refletor de 8 polegadas e uma câmera Expanse Mono. Dizem por aí que estas câmeras  Expanse têm apresentado problemas, simplesmente parando de funcionar. Bem, enquanto a minha estiver funcionando, quero tirar o máximo dela e se ela parar, com certeza vou adquirir outra. Fotografia planetária, principalmente de Júpiter, é apaixonante demais para parar.

Filtro Baader UV-IR Cut. Ano passado, usei um similar, emprestado por um amigo, que rendeu ótimas imagens.


Recentemente, um amigo trouxe para mim um filtro IR-UV Cut da Baader comprado em um site na Inglaterra. Vale dizer, custou 230 reais lá, que não é considerado um país barato, enquanto o mesmo filtro está sendo vendido por 850 reais no Mercado Livre, aqui no Brasil. Esse é o custo de viver em nosso país.

Com este filtro IR-UV, espero fazer imagens bastante interessantes de Júpiter, mesmo com um telescópio razoavelmente pequeno para este tipo de fotografia, onde os grandes papas usam telescópios de 12 a 16 polegadas.

4 - Tirar o máximo da minha lente de 200mm: A minha maior (e melhor) aquisição astrofotográfica ano passado foi a lente de 200mm F2.8 da Canon, considerada por muitos como uma joia da astrofotografia. Mas sinto que não tirei todo o potencial desta lente. Acredito que o maior problema é que a estou usando com o Ioptron Skytracker, que, se quebra o galho quando comparado a uma EQ1 ou EQ2, está longe de se comparar à HEQ5 com Go-To. Nos próximos encontros do CASB, pretendo usar a lente na HEQ5 e conseguir tempos de exposição maiores, tirando o máximo que esta lente pode me dar.

Imagem das Nebulosas Barnard 33 e M42, feita na chácara, com a lente de 200mm. Foram 133 frames de apenas 40 segundos de exposição, no Ioptron Skytracker. Imagino se fosse frames de 5 minutos. Veja a imagem em tamanho grande.


5 - Adquirir um novo Notebook: um outro objetivo nos Estados Unidos é adquirir um notebook melhor. Ano passado, resolvi me desfazer do Desktop que possuía. O aparelho, que tinha 4 anos, começou a apresentar alguns problemas, ocupava espaço demais e exigia manutenção constante. Decidi que já estava na hora de abandonar este tipo de equipamento. Infelizmente, isto causou impacto na minha produção astrofotográfica. Perdi poder de processamento e acho que a falta já está impactando muitas imagens. Com muita demora para aplicar filtros e outros comandos, além de constante travamentos, tenho diminuído o trabalho no processamento das imagens, o que me deixa triste. Numa viagem ao exterior, a compra de um bom notebook pode fazer compensar todo o investimento da viagem.

É isso aí pessoal, espero trazer boas imagens e notícias para vocês em 2017. O EBA vai ser mais curto, já que, ao contrário dos anos anteriores, eu não vou estar de férias no evento, mas a varanda do apartamento deve seguir firme e forte. Quanto ao livro, eu não sei muito o que fazer com ele depois de finalizado. Estou aberto a sugestões. Já recebi algumas, mas toda informação é válida.

Um grande abraço a todos e que 2017 nos traga bons céus.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Nuvem Estelar M24 e IC1284

M24 e IC 1284: Câmera: Canon T2i modificada Lente: Canon EF F2.8 L USMII @F4 Montagem: Ioptron Skytracker 57x60 segundos ISO 800


Mais uma imagem feita com a lente Canon 200mm F2.8 da Canon. Trata-se M24, também chamado de Nuvem Estelar de Sagitário. Na verdade trata-se de um pedaço da Via Láctea, cujo brilho mais intenso, fez com que Charles Messier a incluísse em seu catálogo de objetos, em 1974. O objeto em si é a nuvem mais clara que vemos do lado esquerdo do objeto. À direita dela vemos uma das formações que acho das mais interessantes na Via Láctea, uma nuvem de poeira que apresenta a forma de um triângulo reto. Algo bastante inusitado.

A pequena nuvem vermelha dentro do triângulo reto é a pálida nebulosa IC1284. Tanto M24 como o triângulo são visíveis a olho nu, em locais bens escuros, e ótimos alvos com binóculos. Já o vermelho de IC1284 é visível somente em fotos. Imagem feita durante o Nono Encontro Brasileiro de Astrofotografia, em julho, em Padre Bernardo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A espetacular nebulosa do Camarão - Entendendo um pouco das minhas capturas em Hubble Palette

H-alpha 11x10min
SII e OIII 10x5min Bin 2x2 cada.
Câmera: Atik 314L+
Montagem: Sky-Watcher HEQ5
Telescópio: Orion ED 102mm F7

A nebulosa do Camarão (IC4628) é com certeza um dos objetos que mais fotografei. Fácil de encontrar, numa região com grande densidade de estrelas na Constelação do Escorpião e de visual espetacular, seja com lente, telescópio, DSLR ou filtros de banda estreita, esta nebulosa é sempre um objeto que acaba me atraindo.

No último EBA fiz a imagem acima. Ela é uma composição em Hubble Palette produzida com filtros de banda estreita. Ou seja, as cores não são as verdadeiras do objeto, que, como toda nebulosa de emissão, seria majoritariamente vermelho. A composição Hubble Palette, famosa por ser utilizada em muitas imagens do Telescópio Hubble, usa os filtros de banda estreita de Hidrogênio, Enxofre e Oxigênio para produzir uma imagem com grande contraste e profundidade. Há quem goste e quem não goste deste tipo de imagem. Eu me desenvolvi muito nessa técnica por fotografar primariamente de uma área com grande poluição luminosa. Os filtros de banda estreita são de longe os mais capazes de retirar poluição luminosa de capturas astrofotográficas, embora estejam limitados às nebulosas de emissão, como a Nebulosa da Lagoa, da Águia, da Carina e, é claro, do Camarão. Estes filtros devem ser usados com câmeras monocromáticas. Em câmeras coloridas, apresentam um nível de ruído que pode exigir uma captura muito mais longa.

Os dados da captura aparecem logo abaixo da foto, mas para quem não compreende a forma como eu coloco a informação da captura, seguem algumas explicações:

H-alpha 11x10min = Quer dizer que fiz onze frames de dez minutos usando o filtro H-alpha. No caso, usei um filtro H-alpha da Orion de 7nm. Ele também foi usado como luminance. Ou seja, todos os detalhes que você vê da imagem são da captura em H-alpha. Se você converter a imagem acima para uma imagem monocromática, o resultado final será idêntico a captura em H-alpha.

SII e OIII 10x5min Bin 2x2 cada = aqui estou dizendo que para os outros dois filtros, o de Enxofre (SII) e o de Oxigênio (OIII), ambos de 8nm, da marca Baader, capturei dez frames de 5 minutos com cada filtro. Os frames foram mais curtos porque na captura usei o recurso de Binning em 2x2. Nesta configuração, a câmera transforma cada 4 pixels num único, somando a informação de brilho dos quatro pixels. O resultado é uma imagem mais brilhante, permitindo frames mais curtos. O problema é que o binning diminui a resolução dos frames em quatro vezes. Enquanto os frames da captura em H-Alpha têm resolução HD (1360x1024), os frames dos outros dois filtros tem resolução de 680x512. Mas como estes frames servirão apenas para incluir as cores na imagem final, o resultado será pouco afetado por esta menor resolução.

Cada conjunto de frames capturado num filtro específico é empilhado antes de ser compostos na imagem colorida. No Hubble Palette, o H-alpha é o Luminance e também a cor verde. O enxofre é a cor vermelha e o Oxigênio, a cor azul. Veja abaixo o resultado de cada uma das capturas destes filtros antes da composição na imagem colorida.

Captura na Nebulosa do Camarão com filtro Oxigênio 3 com câmera monocromática Atik 314L+. Integração de 10 frames de 5 minutos em Binning 2x2.
Algo interessante sobre imagens capturadas com o filtro de Oxigênio, é que elas praticamente nos mostram o que conseguiremos ver de uma nebulosa se olharmos através da ocular, num céu muito escuro e com um excelente instrumento. A faixa que o filtro de Oxigênio captura está próximo ao verde, cor que percebemos com mais facilidade.

Captura do filtro de Enxofre, também em 10 frames de 5 minutos em Binning 2x2.

Captura do H-alpha em 11 frames de 10 minutos em Binning 1x1. Repare como o H-alpha registra muito mais detalhes, por isso é também o Luminance da imagem do início do post.


Câmera: Atik 314L+ = Quer dizer que para a foto utilizei minha câmera Atik 314L+. Trata-se de uma câmera dedicada a astrofotografia, com sensor monocromático de resolução 1360x1024 com 2/3 polegadas de diagonal. Câmeras monocromáticas são muito apreciadas em astrofotografia, por apresentarem menos ruído e melhor definição de imagem. Além disso, a Atik 314L+ é uma câmera resfriada, o que permite frames mais longos sem que a câmera apresente muitos hotpixels, além de permitir que eu faça os frames imediatamente um após o o outro, sem necessidade de esperar que o sensor esfrie antes de começar os frames seguintes.

Montagem: Sky-Watcher HEQ5 = aqui estou dizendo que estou utilizando uma montagem HEQ5 da Sky-Watcher. Trata-se de uma montagem robusta, capaz de carregar telescópios médios. Esta montagem tem alguns recursos que a tornam ideal para astrofotografia de céu profundo:
  • Ser equatorial: somente um eixo, alinhado com o polo celeste, precisa estar em movimento durante a captura.
  • Ser motorizada: permite fazer registros de longa exposição dos objetos celestes, que movimentam-se rapidamente no telescópio.
  • Possuir entrada para guiagem: Uma porta na montagem permite acoplar um segundo telescópio com câmera, que irá filmar uma estrela, analisando seu movimento, permitindo que o acompanhamento motorizado da montagem faça correções pontuais durante a captura.

Telescópio: Orion ED 102mm F7: O telescópio usado foi um refrator do tipo ED chamado Orion Premium. Este telescópio tem 102mm de abertura (4 polegadas) e quando dizemos que é um telescópio F7, queremos dizer que a distância focal do telescópio é 7 vezes maior do que sua abertura, ou seja, 710mm. Com duas lentes, sendo uma feita com material especial, que corrige a dispersão da Luz, este telescópio é muito melhor do que um Refrator Acromático comum, em que não há uma lente especial para correção da luz; mas é inferior aos apocromáticos com 3 elementos, que custam em média o dobro do preço do Orion Premium.

O equipamento utilizado para a foto acima. Repare na câmera Atik 314L+ (vermelha), conectada à roda de filtros.


sábado, 10 de setembro de 2016

Sh2-86 - Uma pálida nebulosa que lembra o "Monstro do Lago Ness"

Nebulosa SH2-86, em Hubble Palette


Com certeza não é minha melhor imagem, mas esse objeto, localizado perto da estrela Albireo, é bastante pálido. Por isso, é muito pouco registrado, mesmo estando numa altitude muito boa para astrofotógrafos do Hemisfério Sul. Devo ser um dos primeiros a registrá-lo em banda estreita no Brasil, o que já me deixa muito feliz e já é mais do que motivo para publicá-la.

O grande destaque da imagem é o pilar que aparece no centro. A formação lembra claramente o corpo de um Brontossauro. Acho até que a nebulosa merecia esse apelido. Alguns colegas no EBA comentaram que lembrava o famoso monstro do Lago Ness. Lembram daquela foto famosa do monstro?



A imagem foi feita no Nono Encontro Brasileiro de Astrofotografia, em Padre Bernardo, com telescópio refrator ED de 102mm, câmera monocromática e filtros de banda estreita, por isso, como a maioria de minhas imagens de nebulosas feitas com telescópio, as cores não são as verdadeiras do objeto. Foi aplicado a técnica chamada Hubble Palette.

H-alpha 15x10min
SII e OIII 10x5min Bin 2x2 cada.
Câmera: Atik 314L+
Montagem: Sky-Watcher HEQ5
Telescópio: Orion ED 102mm F7

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Altair, Tarazed e a Nebulosa "E"

 
 
Deixo hoje uma composição muito interessante feita durante o Nono encontro de Astrofotografia. A grande estrela azul à direita na imagem é Altair. Trata-se de décima segunda estrela mais brilhante do céu noturno e a mais brilhante da Constelação de Aquila. Destaca-se principalmente no inverno Brasileiro, como uma das primeiras estrelas do Norte Celeste. É uma estrela oito vezes mais brilhante do que o Sol e esta localizada a somente 16 anos luz de distância. Para os padrões astronômicos, é literalmente uma de nossas vizinhas da Via Láctea. Um vizinha das mais novas, po...is tem cerca de um bilhão de anos, quase cinco vezes menos que o Sol.
 
Já Tarazed, a estrela vermelha no centro da imagem, é na verdade uma estrela dupla que, apesar de ser muito mais brilhante do que Altair, está a uma distância quase trinta vezes maior.
As duas nebulosas escuras na parte direita da imagem são os objetos Barnard 142 e Barnard 143. As duas Nebulosas também são chamadas de Nebulosa E. Se você prestar atenção vai ver que elas formam o desenho da letra "E" maiúscula (de trás pra frente).
 
Esta imagem foi capturada com 34 frames de um minuto (bastante curta para os padrões atuais), com Lente de 200mm F2.8 Canon EF USMII em F4, Canon T2i e Montagem Ioptron Skytracker, durante o Nono Encontro Brasileiro de Astrofotografia, em Padre Bernando - Goias.
 
Se estiver vendo num bom monitor, não deixe de ver na resolução máxima: http://www.astrobin.com/full/256095/0/?real&mod

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Nebulosa Eta Carinae - Em Hubble Palette



Acabei de voltar do Nono Encontro Brasileiro de Astrofotografia, que ao contrário do ano passado, teve excelentes noites de céu limpo. Estou bastante feliz com o resultado e tenho muito material para brincar nas próximas semanas.

Deixo aqui uma das primeiras imagens que processei, da Nebulosa Eta Carinae, numa composição de cores falsa, mas belíssima, chamada Hubble Palette.

Considero um de meus melhores registros do encontro, na verdade um dos meus melhores entre todos o que fiz. Esse foi resultado de uma filosofia bastante diferente da do EBA passado. Em vez de tentar usar um telescópio de grande resolução, na busca de resultados superiores, mas que me deu muita dor de cabeça, optei por deixar o refletor de 200mm em casa e colocar sobre a montagem HEQ5 um refrator de 100mm, muito mais leve e agradável de trabalhar.

Outro pensamento que deu muito resultado, foi que, em vez de tentar fazer composições RGB, partindo do princípio de que deveria aproveitar o céu sem poluição luminosa, optei para me concentrar durante o EBA naquilo que sei fazer muito bem, que são composições em Hubble Palette.

Deixo também um registro do cometa Pansstars 2013 X1, que acompanhou todo o evento. Este foi feito com lente de 200mm e DSLR Canon T3i. Reparem como o cometa estava passando próximo a nebulosa NGC 6188.


domingo, 19 de junho de 2016

Testando uma ASI174mm-cool


Mas como seria bom se eu pudesse testar uma dessas câmeras, não seria? O legal é que eu testei. Semana passada um amigo me emprestou uma ASI174, a câmera com o segundo maior sensor da nova série da ZWO, menor somente que o da recém-lançada ASI1600. O modelo testado foi uma ASI174mm-cool, ou seja, a versão monocromática e resfriada.

A ASI174 tem um considerável sensor de 1/1.2 polegadas, mas tem pixels grandes, de 5.86um, o que não lhe dá uma resolução das maiores, são 2.3 megapixels. É uma câmera com sensor e resolução um pouco maior do que minha CCD ATIK 314L+, que tem sensor de 1/1.5 polegadas e resolução de 1,3 megapixels. Os pixels da ASI174, entretanto, são um pouco menores. Os da Atik 314 tem 6.45um.

Como você viu no post anterior, segundo o site da Sony, o sensor IMX174 da ASI174 tem praticamente o mesmo nível de ruído do sensor da Atik 314L, mas é um pouco menos sensível do que o da CCD. Entretanto, por ser uma CMOS, a ASI174mm permite aumento do ganho, o que, apesar do ruído a mais, pode deixar a câmera da ZWO mais sensível do que a da ATIK, tendo que compensar, é claro, com mais frames.

Para fotografar céu profundo com estas novas câmeras da ZWO, o ideal é usar um software especializado em céu profundo, como o MaximDL ou o Nebulosity. Como não tinha nenhum dos dois, adquiri o Nebulosity 4, que reconhece estas novas câmeras automaticamente (depois da instalação dos drivers, é claro). Eu devo passar a usar este software também com a Atik 314L, embora tenha visto algumas desvantagens em relação ao Artemis, software proprietário da Atik. Mas talvez seja falta de conhecimento meu em relação ao Nebulosity.

Devido à poluição luminosa da região onde moro, uma das mais densamente povoadas de Brasília, resolvi fazer uma captura em banda estreita. O objeto escolhido foi a Nebulosa da Lagoa, uma das nebulosas mais brilhantes desta época do ano. O telescópio usado foi o refrator ED de 102mm, que me acompanha desde o começo da Astrofotografia. Optei por ele e não o Refletor de 200mm por ser mais fácil de usar (Estou decidido a parar de usar o refletor de 200mm sobre a HEQ5 para céu profundo, devido à enorme dor de cabeça que é usar este telescópio grande sobre uma montagem mais frágil para este tipo de fotografia). O ED também tem uma razão focal maior, F7, e achei que seria interessante testar a ASI174 nesta condição de menor absorção de luz.




Frame único de três minutos da nebulosa da Lagoa, com o ganho da ASI174mm-cool em 100 (vai até 400) e o sensor resfriado a -10 graus.

O primeiro light frame da Nebulosa da Lagoa, capturando o H-alpha com 3 minutos de exposição, me impressionou pelos detalhes da nebulosa, mas percebi dois problemas. Primeiro, um forte clareamento da borda inferior direita da imagem. A câmera não tem culpa alguma por esse defeito no lightframe. Ele ocorreu por vazamento de luz na minha roda do filtros manual, que é aberta no dispositivo que permite a troca dos filtros. Apesar de ser feio na foto, este não é um problema de difícil solução. Basta fazer darkframes, que esse vazamento de luz vai aparecer nos darks e portanto será subtraído totalmente da imagem final. É importante, é claro, que sejam feitos sobre as mesmas condições de iluminação. Ou seja, eu não posso acender a luz durante os darks.

Dark frame da ASI174. Vazamento de luz na minha roda de filtros deixou um clarão no canto inferior direito.


Já o outro problema percebido não foi culpa da roda de filtros. São linhas horizontais que percorrem toda a imagem. Eu nunca tinha visto isso e tive que consultar os universitários num grupo de astrofotógrafos no Whatsapp. Lá fiquei sabendo que é algo comum em sensores do tipo CMOS, pela forma como eles carregam as imagens. A melhor solução seria fazer muitos bias, fotos feitas com o telescópio tampado e o mínimo tempo de exposição do sensor. Eu fiz 100.

Bias mostram linhas horizontais, características de muitos sensores CMOS, devido a forma como carregam os frames


Com 20 light frames do filtro H-alpha, e 7 das outras duas cores do Hubble Palette (OIII e SII), integrei a imagem no Deep Sky Stacker, com mais 10 dark frames e os bias. O resultado, após composição no Fitswork, wavelets no Registax e balanço de cores no Adobe PhotoShop, você vê na imagem abaixo. Só uma pequena observação: eu devia parar de usar os Wavelets do Registax, pela forma como eles deixam as estrelas gordas, mas ainda sou seduzido pelo modo como realçam os detalhes, aumentando a nitidez.



Repare como os dark frames fizeram desaparecer completamente o clareamento do canto inferior direito e os bias ajudaram a quase eliminar as linhas horizontais, que ainda podem ser vistos quando se examina a imagem com mais atenção.

O resultado final foi considerado bastante satisfatório. Acredito que ficou um pouco abaixo do que a Atik 314L+ é capaz. Eu fiz uma imagem com a CCD com o mesmo telescópio dois anos atrás que claramente apresenta detalhes superiores. Conta a favor da imagem da CCD que os frames foram mais longos, com 5 minutos, mas a guiagem estava bem pior e as cores não foram do telescópio e sim de uma imagem com lente de 135mm. Clique aqui para ver a imagem.

É importante dizer que a ASI174 está deixando de ser fabricada. Ela está sendo substituída pela ASI1600, que tem um sensor maior, menos ruído e parece ter menos problemas com as linhas horizontais. Talvez eu consiga testar uma ASI1600 no EBA, que acontece em duas semanas.

A minha impressão sobre estas novas câmeras astronômicas com sensor CMOS é a seguinte: para quem tem um bom CCD, como um com o sensor KAF8300, a troca por estas câmeras não irá acrescentar nada, mas para quem gostaria de dar um passo à frente em relação às DSLRs, é uma excelente opção. Eu não tenho intenção de trocar minha Atik 314L+ por uma dessas câmeras. Mas se minha Atik, por algum motivo, estragar, é muito provável que eu adquira uma ASI1600, pelo baixo custo.


Eu também usei a câmera com o telescópio refletor de 200mm, mas neste caso limitei-me a imagens lunares e planetárias. Deixo abaixo algumas imagens feitas da Lua e uma de Marte com a ASI174mm.

Região em volta da cratera Platão, o que mais gostei desta foto foi a parte da borda, no alto da imagem.



Cratera Copernicus e as consequências de seu impacto, em volta.
No alto da imagem, com uma bela montanha no centro, a Cratera Pitágoras.
Marte, já começando a se afastar da Terra.

A ASI174mm, fotografando a Lua e Marte no Refletor de 200mm, com o Extensor 5x e roda de filtros manual.