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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Em Breve: Novas câmeras para Astrofotografia planetária e de céu profundo.

Quem me acompanha com mais frequência sabe que atualmente não dá pra comprar um novo equipamento todo dia (embora eu quisesse), principalmente quando estamos falando dos equipamentos principais para Astrofotografia: câmera, tubo óptico e montagem. Mas pelo menos uma vez por ano eu faço questão de comprar um exemplar destes equipamentos, para dar uma renovada no ímpeto astrofotográfico. Afinal, quando você compra um equipamento novo, principalmente câmera ou tubo óptico, de repente se vê com disposição para registrar todos os objetos que fotografou mais uma vez, afinal, sabe que agora poderá conseguir resultados completamente diferentes.

Atualmente eu tenho dois telescópios principais, um refrator ED de 102mm de abertura e um refletor newtoniano de 200mm, além de três lentes muito boas para astrofotografia, a "quase um telescópio" Canon 200mm F2.8 EF L USM II, a boa e barata 50mm F1.8 e uma última de 10-22mm, voltada para paisagens e campos enormes. Apesar do Refrator já estar meio velhinho e o focalizador de ambos os telescópios estarem precisando serem trocados, a óptica dos dois tubos está perfeita, então definitivamente tubo óptico não é algo para ser trocado. Bem, na verdade eu até gostaria de um refletor de 300mm de abertura, para quem sabe fazer imagens planetárias de tirar o fôlego, mas esta mudança iria exigir uma montagem maior do que a minha HEQ5 atual. E uma boa EQ6 está difícil de encontrar no Brasil por menos de 10 mil reais.

Mas, com a época das secas chegando em Brasília (talvez até seca demais desta vez) e os céus começando a ficar estrelados durante a noite, a vontade de gastar foi ficando mais intensa. E neste momento surge uma promoção do site Tellescópio.com.br com câmeras da QHY e da ZWO com 25 por cento de desconto. A compra é feita por encomenda e os produtos devem chegar em cerca de dois meses. Mas eu não resisti. E adquiri dois exemplares logo de uma vez. Uma QHY5-III 224C, para fotos planetárias, e uma Câmera QHY163M Mono - Cooled. São basicamente uma excelente câmera planetária e uma ótima câmera para céu profundo.

A pequena QHY5-III 224C será usada para captura de planetas e como guiagem da 163M.

A QHY5-III224C tem o mesmo sensor da consagrada ASI224MC. Ela me trará uma experiência diferente da câmera atual, me permitindo fazer imagens planetárias sem o uso de roda de filtros. Optei pela 224C e não uma com sensor monocromático porque gosto do balanço de cores que as câmeras coloridas conseguem com planetas. Esta câmera também tem muito mais sensibilidade do que a minha atual Expanse 120 e, combinando com a saída USB 3.0, deverá conseguir uma taxa de frames absurdamente alta. 

Já a QHY163M trará uma avanço incrível para a Astrofotografia de céu profundo. Ela tem 16 megapixels, contra 1,3 da minha atual Atik 314L+. Essa diferença de megapixels não reflete de forma justa a real diferença entre as câmeras, por que o sensor CCD da Atik, apesar de pequeno, tem pixels grandes e sensíveis, ainda assim, a versatilidade e os recursos do sensor da QHY163 deverão melhorar em pelo menos duas vezes a qualidade de minhas fotografias de céu profundo.

A QHY163M tem sensor de 16 megapixels do tamanho 4/3 (pouco menor do que o de uma DSLR de entrada) e resfriamento.


A brincadeira toda ficou em cerca de 5500 reais. Dói no bolso e, até as câmeras chegarem, certamente vou ficar bastante ansioso, torcendo para que tudo dê certo. Mas eu confio no site Tellescopio.com.br. Eles têm até um banner aqui no blog, mas não é por que eles me pagam por isso. O banner foi colocado sem qualquer custo porque considero que lojas de equipamentos astronômicos são fundamentais para a Astrofotografia Brasileira e precisam do apoio de aficionados como eu.

A promoção vai até o dia 30 de maio. Pelo que entendi do site, o esquema é o seguinte. Durante um mês as câmeras ficam em promoção, mas o Tellescopio só faz a encomenda ao fim da promoção, para poder fazer um pedido de um lote maior, conseguindo preço melhores. Você pode acessar o site clicando no link abaixo:




domingo, 19 de junho de 2016

Testando uma ASI174mm-cool


Mas como seria bom se eu pudesse testar uma dessas câmeras, não seria? O legal é que eu testei. Semana passada um amigo me emprestou uma ASI174, a câmera com o segundo maior sensor da nova série da ZWO, menor somente que o da recém-lançada ASI1600. O modelo testado foi uma ASI174mm-cool, ou seja, a versão monocromática e resfriada.

A ASI174 tem um considerável sensor de 1/1.2 polegadas, mas tem pixels grandes, de 5.86um, o que não lhe dá uma resolução das maiores, são 2.3 megapixels. É uma câmera com sensor e resolução um pouco maior do que minha CCD ATIK 314L+, que tem sensor de 1/1.5 polegadas e resolução de 1,3 megapixels. Os pixels da ASI174, entretanto, são um pouco menores. Os da Atik 314 tem 6.45um.

Como você viu no post anterior, segundo o site da Sony, o sensor IMX174 da ASI174 tem praticamente o mesmo nível de ruído do sensor da Atik 314L, mas é um pouco menos sensível do que o da CCD. Entretanto, por ser uma CMOS, a ASI174mm permite aumento do ganho, o que, apesar do ruído a mais, pode deixar a câmera da ZWO mais sensível do que a da ATIK, tendo que compensar, é claro, com mais frames.

Para fotografar céu profundo com estas novas câmeras da ZWO, o ideal é usar um software especializado em céu profundo, como o MaximDL ou o Nebulosity. Como não tinha nenhum dos dois, adquiri o Nebulosity 4, que reconhece estas novas câmeras automaticamente (depois da instalação dos drivers, é claro). Eu devo passar a usar este software também com a Atik 314L, embora tenha visto algumas desvantagens em relação ao Artemis, software proprietário da Atik. Mas talvez seja falta de conhecimento meu em relação ao Nebulosity.

Devido à poluição luminosa da região onde moro, uma das mais densamente povoadas de Brasília, resolvi fazer uma captura em banda estreita. O objeto escolhido foi a Nebulosa da Lagoa, uma das nebulosas mais brilhantes desta época do ano. O telescópio usado foi o refrator ED de 102mm, que me acompanha desde o começo da Astrofotografia. Optei por ele e não o Refletor de 200mm por ser mais fácil de usar (Estou decidido a parar de usar o refletor de 200mm sobre a HEQ5 para céu profundo, devido à enorme dor de cabeça que é usar este telescópio grande sobre uma montagem mais frágil para este tipo de fotografia). O ED também tem uma razão focal maior, F7, e achei que seria interessante testar a ASI174 nesta condição de menor absorção de luz.




Frame único de três minutos da nebulosa da Lagoa, com o ganho da ASI174mm-cool em 100 (vai até 400) e o sensor resfriado a -10 graus.

O primeiro light frame da Nebulosa da Lagoa, capturando o H-alpha com 3 minutos de exposição, me impressionou pelos detalhes da nebulosa, mas percebi dois problemas. Primeiro, um forte clareamento da borda inferior direita da imagem. A câmera não tem culpa alguma por esse defeito no lightframe. Ele ocorreu por vazamento de luz na minha roda do filtros manual, que é aberta no dispositivo que permite a troca dos filtros. Apesar de ser feio na foto, este não é um problema de difícil solução. Basta fazer darkframes, que esse vazamento de luz vai aparecer nos darks e portanto será subtraído totalmente da imagem final. É importante, é claro, que sejam feitos sobre as mesmas condições de iluminação. Ou seja, eu não posso acender a luz durante os darks.

Dark frame da ASI174. Vazamento de luz na minha roda de filtros deixou um clarão no canto inferior direito.


Já o outro problema percebido não foi culpa da roda de filtros. São linhas horizontais que percorrem toda a imagem. Eu nunca tinha visto isso e tive que consultar os universitários num grupo de astrofotógrafos no Whatsapp. Lá fiquei sabendo que é algo comum em sensores do tipo CMOS, pela forma como eles carregam as imagens. A melhor solução seria fazer muitos bias, fotos feitas com o telescópio tampado e o mínimo tempo de exposição do sensor. Eu fiz 100.

Bias mostram linhas horizontais, características de muitos sensores CMOS, devido a forma como carregam os frames


Com 20 light frames do filtro H-alpha, e 7 das outras duas cores do Hubble Palette (OIII e SII), integrei a imagem no Deep Sky Stacker, com mais 10 dark frames e os bias. O resultado, após composição no Fitswork, wavelets no Registax e balanço de cores no Adobe PhotoShop, você vê na imagem abaixo. Só uma pequena observação: eu devia parar de usar os Wavelets do Registax, pela forma como eles deixam as estrelas gordas, mas ainda sou seduzido pelo modo como realçam os detalhes, aumentando a nitidez.



Repare como os dark frames fizeram desaparecer completamente o clareamento do canto inferior direito e os bias ajudaram a quase eliminar as linhas horizontais, que ainda podem ser vistos quando se examina a imagem com mais atenção.

O resultado final foi considerado bastante satisfatório. Acredito que ficou um pouco abaixo do que a Atik 314L+ é capaz. Eu fiz uma imagem com a CCD com o mesmo telescópio dois anos atrás que claramente apresenta detalhes superiores. Conta a favor da imagem da CCD que os frames foram mais longos, com 5 minutos, mas a guiagem estava bem pior e as cores não foram do telescópio e sim de uma imagem com lente de 135mm. Clique aqui para ver a imagem.

É importante dizer que a ASI174 está deixando de ser fabricada. Ela está sendo substituída pela ASI1600, que tem um sensor maior, menos ruído e parece ter menos problemas com as linhas horizontais. Talvez eu consiga testar uma ASI1600 no EBA, que acontece em duas semanas.

A minha impressão sobre estas novas câmeras astronômicas com sensor CMOS é a seguinte: para quem tem um bom CCD, como um com o sensor KAF8300, a troca por estas câmeras não irá acrescentar nada, mas para quem gostaria de dar um passo à frente em relação às DSLRs, é uma excelente opção. Eu não tenho intenção de trocar minha Atik 314L+ por uma dessas câmeras. Mas se minha Atik, por algum motivo, estragar, é muito provável que eu adquira uma ASI1600, pelo baixo custo.


Eu também usei a câmera com o telescópio refletor de 200mm, mas neste caso limitei-me a imagens lunares e planetárias. Deixo abaixo algumas imagens feitas da Lua e uma de Marte com a ASI174mm.

Região em volta da cratera Platão, o que mais gostei desta foto foi a parte da borda, no alto da imagem.



Cratera Copernicus e as consequências de seu impacto, em volta.
No alto da imagem, com uma bela montanha no centro, a Cratera Pitágoras.
Marte, já começando a se afastar da Terra.

A ASI174mm, fotografando a Lua e Marte no Refletor de 200mm, com o Extensor 5x e roda de filtros manual.

domingo, 13 de setembro de 2015

Adaptador para lentes Canon EF em câmeras ATIK com roda de filtros, por Eduardo Oliveira.

O texto abaixo não foi feito por mim. Ele foi enviado pelo Eduardo Oliveira, um grande astrofotógrafo que tem nos acompanhado nos Encontros Brasileiros de Astrofotografia. No texto, o Eduardo mostra como fazer um adaptador para lentes Canon EOS EF em câmeras Atik e que ainda permite o uso de roda de filtros, algo que os adaptadores vendidos comercialmente não fazem. Obrigado Pela colaboração Eduardo.


UM ADAPTADOR PARA A ATIK 314L+ E LENTES CANON EOS EF QUE PERMITE O USO DE RODA DE FILTRO

Desde que recebi a minha CCD, uma Atik 314L+, que eu tive a vontade de usá-la com as minhas lentes Canon EF. A Atik 314L+ é baseada em um sensor, o SONY ICX-285AL, que possui 1360 x 1024 pixels (em um sensor com 11 mm de diagonal). Este sensor pequeno, combinado com distâncias focais elevadas, fornece um campo de visão muito pequeno. Para dar um exemplo, a Atik314L+ com meu RC8 (com 1625 mm de distância focal) me fornece um campo de apenas 14.2 x 19 minutos de arco, com uma resolução de 0,82 segundos de arco por pixel. Isto é um campo adequado para pequenas galáxias, mas é inconveniente para muitos outros alvos. Para ter-se uma ideia, um campo deste mal dá para fotografar a nebulosa de Órion (ver Figura 1 abaixo), a menos que você encare um mosaico trabalhoso, ou utilize um telescópio de menor distância focal. Por isso, acoplar as lentes Canon EF com a Atik me pareceu tão interessante desde o início.

  Figura 1. M42 e o campo da combinação Atik 314L+ e um RC8 (1625mm de distância focal)

Há um adaptador comercialmente disponível (Figura 2) que permite utilizar as lentes Canon EF com a Atik 314L+. Ele é produzido pela empresa italiana Geoptik, e pode ser comprado na Teleskop Express por 119 euros (502 reais na cotação de 02 de Setembro de 2015). Além de ser um acessório com preço bem salgado, ele só permite a utilização de filtros de banda estreita ou filtros LRGB através da troca manual dos filtros. É verdade que o adaptador vem com um uma peça que permite inserir filtros de 1,25 ou 2 polegadas, mas trocar estes filtros manualmente, no meio de uma sessão de astrofotografia, geralmente no escuro, nunca me pareceu uma alternativa muito viável. Quando eu recebi a minha CCD Atik, encomendei também uma roda de filtros motorizada (a EFW2), pois é bastante conveniente você poder trocar os filtros de forma automatizada, controlada por software, sem nem mesmo precisar tocar na sua CCD. Por estas razões eu não investi no adaptador da Geoptik e continuei a procurar uma alternativa de adaptador que me permitisse usar também a roda de filtros. 

 
Figura 2. O adaptador comercialmente disponível da Geoptik para a Atik (rosca T2) e as Lentes Canon EOS

Uma postagem de um astrofotógrafo britânico no stargazers lounge me colocou na direção correta. A postagem original pode ser encontrada aqui. Como o meu adaptador utilizou peças diferentes do dele, e tem uma montagem mais simples, vou detalhar aqui a sua confecção.
Material necessário:
  1. Um adaptador Atik M42 para M57 (OPT part number, A3-M54/M42). Preço: 18 dólares

  1. Um “Vello Manual Extension Tube Set for Canon EF/EF-S-Mount”, (disponível na BH Photovideo). Deste kit você só irá utilizar o anel mais à esquerda na foto. Preço: 18,50 dólares.
  1. Cola Epoxi Loctite Power Crystal Cola Epoxi 16g, disponível em lojas de material de construção.


Seria muito simples produzir este adaptador se a distância entre o plano do sensor da CCD e o flange da lente Canon EF (chamada de “registration distance”) não tivesse que ser de exatamente 44 mm para que a lente possa alcançar foco no infinito. Mas para construir o adaptador de forma que esta distância seja respeitada (e você consiga fazer foco) precisamos tecer algumas considerações. Precisamos lembrar que a configuração final do conjunto será formada por: CCD Atik>roda de filtros EFW2>adaptador a ser construído>lente Canon EF. A distância entre o sensor da Atik e o flange da câmera precisa ser de 44mm. A dificuldade é construir um adaptador que garanta, quando rosqueado, que esta distância seja atingida. No post original do stargazers lounge há uma foto que mostra exatamente do que estou falando (veja a Figura 3). Na foto abaixo pode-se verificar que o adaptador, encaixado de um lado na baioneta da lente EF, e do outro na roda de filtros, permite que a distância final entre o sensor da CCD e o flange da lente seja de 44mm:


Figura 3. A distância entre o flange da lente (neste caso uma sigma EF) e o plano do sensor da Atik 314L+ tem que ser de 44 mm. Créditos: Coco, Stargazers Lounge

O adaptador que eu fiz foi simples. Ele é basicamente o adaptador M42/M57 do item 1 na seção de materiais deste post, colado com cola epóxi ao anel mais à esquerda do item 2. Dá para ver uma foto aqui do adaptador pronto (Figura 4)


Figura 4. O adaptador pronto.

Eu peguei o anel mais à esquerda do item 2 (em “Material necessário”), ou seja, o anel que possui o adaptador da baioneta, e pedi a um torneiro mecânico desbastar dele, exatos 5mm. Estes 5mm foram calculados para o meu setup, para a sua roda de filtros e sua câmera você precisará calcular a distância correta, de forma que rosqueado com a roda de filtros você atinja os 44mm. Este desbaste foi feito com um torno mecânico, do lado oposto ao do encaixe de baioneta. Minha ideia inicial foi fazer este desbaste utilizando um corte com uma serra para metais, mas logo percebi que seria muito difícil fazer isso de forma uniforme ao longo de todo o diâmetro da peça com precisão milimétrica, por isso aqui não tem outra forma senão colocar este serviço nas mãos de um torneiro profissional. O anel, após o desbaste ficou com exatos 7 mm após o desbaste. Na Figura 5 abaixo dá para ver em melhor detalhe a estrutura do anel que precisa ser desbastado. 

Note que há duas faces do anel. Uma que é na cor de alumínio, aonde se localizam os parafusos de fixação (indicados pelas setas) e um pino que serve para travar o anel na lente e a outra face na cor preta. Há dois pontos importantes a observar nesta operação de desbaste: O primeiro é que a face do anel que sofrerá a ação do torno para reduzir sua espessura é a face oposta à indicada, ou seja, a que aparece voltada para baixo, oculta, na figura. O outro ponto é que é uma boa ideia desparafusar (nos 4 parafusos indicados pelas setas) este anel de alumínio externo, antes de colocar a peça no torno, de modo a facilitar a fixação da peça e ao mesmo tempo evitar danificar este anel externo no processo, já que é este anel que possui as lâminas que asseguram o travamento do adaptador na baioneta da lente. Você irá notar que desbastar 5mm da peça significa desbastar até atingir o mecanismo de trava (circulado na Figura 5). Isto deixa o mecanismo sem a mola original, mas não impede de ser utilizado com a função de trava após completar a confecção do adaptador. Por esta razão também é uma boa ideia remover esta travinha antes de levar a peça ao torneiro. Para isso, após desparafusar nos locais indicados e remover o anel externo de alumínio como sugerido anteriormente, aproveite e com um alicate, desrosqueie girando no sentido anti-horário a cabecinha da trava para removê-la.


Figura 5. Anel que sofrerá desbaste para montar o adaptador. As setas indicam os parafusos para remover o anel de alumínio externo. O círculo (bem, deveria ser um círculo) mostra o mecanismo de travar na lente.

Novamente, e isto é muito importante: a peça deve ser desbastada o suficiente para que, após reafixar o anel de alumínio externo, a mesma fique com 7 mm de espessura.
O passo seguinte será colar o “adaptador Atik M42 para M57” no anel desbastado como especificado acima. Neste processo deve-se ter cuidado para não colocar uma camada tão espessa de cola epoxy que a cola acabe atingindo e colando nas lâminas metálicas que se encaixam na baioneta da lente. Eu passei a cola no adaptador M42 para M57 (na face oposta à face M57, macho, ver Figura 6 abaixo). Use a cola epoxy conforme as instruções do fabricante. Chamo a atenção para respeitar o tempo após a mistura da cola e do secante e promover uma boa e homogênea mistura entre os dois. Após misturar o conteúdo dos dois tubos, use nas superfícies a serem coladas antes dos primeiros 4 minutos para ter uma boa performance.


Figura 6. Diagrama esquemático mostrando as superfícies a serem coladas

Abaixo, mais fotos do adaptador pronto e conectado a CCD e lente:


Eu testei rapidamente o conjunto, mas a montagem nem mesmo alinhada estava. Foi uma exposição com filtro de Luminância, de 2s da região próxima à estrela teta de escorpião (Sagras). O foco pode melhorar um pouco com uma máscara Bahtinov, mas deu para confirmar a funcionalidade do adaptador, que por 36 dólares é uma excelente opção para a Atik 314L+ e Lentes Canon EF.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Boa notícia: Novos motores para montagens EQ-1 e EQ-2 estão disponívens no Astroshop e Armazém do Telescópio.

O motor que possui controle de mão e usa pilhas grandes é um conjunto maior, mas muito melhor do que aquele movido a bateria de 9V.


Ontem me surpreendi com a volta dos motores de passo com controle de mão para montagens EQ-1 e EQ-2. Estes motores são muito, mas muito melhores do que aqueles que usam bateria de 9V, com os controles no próprio motor, pois você não precisa ter que ficar regulando a velocidade até achar o ponto certo, o que gera uma grande dor de cabeça durante o uso. Além disso, estes motores com controle de mão não travam o eixo de ascensão reta, permitindo que você use o controle de movimento manual da montagem mesmo com o motor atracado a ela. E por fim, após testar os dois modelos por algum tempo, posso dizer com certeza que este modelo é muito mais preciso e robusto, gerando muito menos frames defeituosos.

Este motor com controle de mão numa montagem EQ-1 ou EQ-2 cria uma setup bastante barato e portátil para astrofotografia com DSLRs e lentes (retirando o telescópio antes, senão fica muito pesado). Com uma EQ-1 motorizada com este motor, eu cheguei a conseguir tempos de exposição de até 1 minuto ao usar uma DSLR com lente de 135mm e o sistema é robusto o suficiente para fotografias até mesmo com lentes de 200mm. Também cheguei a conseguir imagens com um telescópio de 90mm e DSLR. Foram tempos de exposição mais curtos, de 15 segundos, mas que me permitiram fazer a imagem da Nebulosa do Haltere (M27) abaixo.

O motor com controle remoto só tem a desvantagem de ser um conjunto um pouco maior do que o motor movido a bateria de 9v. Afinal, ele é compostos por 3 peças: o motor, o controle de mão e também uma bolsa para as baterias. Mas vale muito a pena carregar este peso a mais. Este motor é o mesmo usado para movimentar montagens EQ3-2, quer dizer, é feito para segurar bastante peso. Acho que se não estiver ventando dá pra conseguir até tempos de exposição bastante razoáveis com telescópios de 114mm ou 90mm, talvez uns 30 segundos ou mais.

Vale lembrar que você deve adquirir o motor compatível com a sua montagem. No site da Astroshop eles informam quais montagens são compatíveis e você deve ficar atento a isso. Caso contrário, pode ter problemas (Eles parecem um pouco confusos em relação a montagem CG3). Existem dois motores disponíveis: para montagens EQ-1 e EQ-2. Infelizmente a nem Astroshop nem o Armazem do Telescópio tem as montagens para venda, mas você pode adquirir telescópios que tenham a montagem no conjunto. E se você já tiver um telescópio com uma montagem compatível, este é o motor certo a se adquirir, não o com bateria de 9V. Também é recomendado a aquisição de 4 pilhas grandes recarregáveis e o devido carregador, facilmente encontrado no Mercado Livre ou semelhantes.

Entenda que estes motores funcionam num único eixo, o de Ascensão Reta. O que de forma alguma prejudica a fotografia ou observação de objetos, já que o eixo de declinação não é movido durante o acompanhamento da movimentação do céu e estas montagens permitem o ajuste deste eixo de forma manual com controles de precisão. O motor também não vai fazer que seu telescópio se transforme num modelo Go-To, que encontra os objetos automaticamente. Ele é voltado principalmente para quem quer iniciar na astrofotografia ou visualizar com mais conforto em telescópios mais simples. Além disso, na montagem EQ-1 a movimentação da estrutura é atrapalhada pelo motor em alguns pontos, por isso eu recomendo, que se possível, tente montar o conjunto para EQ-2, que tem o eixo de ascensão reta mais comprido, diminuindo este problema.

Links para os motores:  




Nebulosas Pata do Gato e da Lagosta (ou Guerra e Paz) registradas com DLSR modificada, lente de 135mm F2.8 e montagem EQ-1 motorizada com o motor com controle remoto movido a pilhas grandes. Clique na imagem para ver maior.


M27, registrada da varanda de meu apartamento com EQ-1 motorizada com o motor de controle remoto, aguentando um telescópio de 90mm e a DSLR.



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O que são os trackers? Uma opção para quem quer um sistema portátil e simples para astrofotografia com lentes.

Astrofotográfia amadora é tido por muitos como uma atividade bastante complexa, que envolve não apenas telescópio, câmera e montagem, mas também uma infinidade de acessórios, além de um complicado sistema de autoguiagem. Alguns associam uma viagem astrofotográfica a carros lotados até a boca de cases, caixas e bolsas com equipamentos. As vezes é mesmo assim, mas o que muitos não sabem ao começarem na astrofotografia é que existem formas bem simples de se astrofotografar com qualidade, com equipamentos que cabem numa mochila e que podem ser transportados tranquilamente em viagens de ônibus ou avião, sem preocupação em pagar excesso de bagagem, ou até mesmo carregados em longas trilhas.
A forma mais portátil de se astrofotografar é sem dúvida com o uso de lentes (não muito grandes, é claro), no lugar do telescópio. O problema é que, até pouco tempo, as boas montagens eram sempre  dimensionadas para telescópio maiores, por isso muitos astrofotógrafos que registram com lentes, preferiam colocar a câmera montada sobre o telescópio, numa técnica chamada piggy-back, que não ajudava muito a deixar as coisas mais simples.
Felizmente com o crescimento do mercado astrofotográfico nos últimos anos e o aumento das opções de equipamentos totalmente voltados para esta atividade e não pensados principalmente em observação, começaram a surgir montagens bastante portáteis dimensionadas para quem quer registrar somente com a câmera DSLR e lentes menores. São verdadeiras montagens em miniatura, para serem colocadas sobre tripés fotográficos comuns, que permitem ao astrofotógrafo colocar somente a câmera e a lente e conseguir fotos incríveis com um setup muito simples, são os chamados Trackers.
Os trackers são ótimas opções principalmente se o astrofotógrafo precisa se deslocar para locais com céu escuro e não pode ou não quer levar grande quantidade de equipamento, são muito interessantes quando a viagem é rápida, como aquela ida a fazenda de um amigo no fim de semana, ou para viagens muito distantes, principalmente se o meior de transporte usado for aéreo.
O número de trackers no mercado ainda é pequeno, dá pra contar nos dedos, mas são modelos variados, de preços e tamanhos diferentes, que podem ajudar muito o Astrofotógrafo. O mais caros que conheço são o Astrotrac e o Losmandy Starlapse, enquanto o mais barato é o Sky tracker da Ioptron, não por ocaso o que eu possuo, adquirido há algumas semanas durante o Oitavo EBA. Ele tem um concorrente muito semelhante, o Polarie Star Tracker, da Vixen. Mas a grande sensação do mercado atualmente é o Skywatcher Star Adventurer. Que é bem mais barato do que os modelos da Astrotrac e Lonsmandy e mais completo do que os modelos da Vixen e Ioptron.  A Ioptron ainda tem o Skyguider, parecido com o Adventurer, mas com cara de ser mais pesadão.
Eu não vou fazer uma comparação entre todos, principalmente os mais caros, por que não tive contato com eles. Um que não comprei, mas que pude acompanhar de perto trabalhando, foi O Adventurer. usado por dois colegas durante o EBA. Um deles, em especial estava ao meu lado.

Com o conjunto Astro Bundle o Skywatcher Star Adventurer até parece uma pequena montagem e pode ser usado até mesmo com pequenos telescópios e sem a necessidade de uma Ball Head.

O Adventurer vem em três versões, uma mais enxuta, chamada Raspberry, que acompanha Ball Head e telescópio polar, uma intermediária, que recebe o acréscimo de uma base inclinada para alinhar a montagem com o pólo sul (ou EQ wedge), chamada Photo Bundle e uma terceira, chamada Astro Bunble que, além dos acessórios já citados, acompanha um dovetail com adaptador para Ball Head e barra com contrapeso. Esta última versão, mas completa e pra mim a mais recomendada, pois o contrapeso permite maior equilíbrio no acompanhamento, principalmente com o uso de lentes maiores.
Um dos destaques do Adventurer é ter porta de Autoguiagem, permitindo ao usuário uma precisão muito grande no acompanhamento dos astros. Além disso ele vem com modos de velocidade para planetas, Sol e Lua, e outros modos para a elaborações de interessantes time lapses. Completo, com o conjunto Astro Bundle, ele se parece muito com uma minimontagem equatorial. Mas não se engane, falta ao Adventurer motorização no eixo de declinação, caracteristica dos outros trackers, por isso ele não é exatamente uma mini montagem equatorial, como A Smart EQ da Ioptron, que possui motorização no eixo de declinação e até Go-To. No adventurer, como nos outros trackers, você tem que colocar a mão na montagem para posicionar a câmera e ajustar o enquadramento. Essa é uma caracteristicas que geram alguns desconfortos, como a montagem desalinhar com o pólo enquanto você está ajustando. O colega que estava a meu lado no EBA teve que ajustar o pólo várias vezes durante o evento. Eu, com a Ioptron, também passei alguma dificuldade.
O Tracker da Ioptron, que possuo, é bem mais simples que a Adventurer. Trate-se de uma caixa pequena e achatada, com um motor, encaixe para Ball Head, telescópio polar e ajuste de declinação na base. Para usá-lo é obrigatória a aquisição de uma ball head, enquanto no Adventurer é possível posicionar a câmera em qualquer direção somente como o suporte que o acompanha, alguns astrofotógrafos até preferem usar o Adventurer sem a Ball Head, para maior estabilidade.

O Ioptron Sky Tracker é mais simples do que o Star Adventurer, mas ainda é uma opção muito melhor do que uma EQ-1 ou EQ-2.
Um bom tripé também é um acessório fundamental para qualquer tracker. Eu já tinha um em casa que parece que se deu muito bem com o Sky Tracker da Ioptron. Nota: É recomendado retirar a cabeça do tripé e conectar o tracker direto nele, que possui entrada para rosca 3/8. Isso dá muito mais estabilidade e segurança ao conjunto, além de deixar mais leve.
Durante o EBA, eu consegui tempos médios de 3 minutos de exposição com lente de 50mm, 90 segundos com lente de 135mm e um minuto com lente de 200mm, o que considerei muito adequado, mas abaixo do que eu conseguia com a CG-5. Vale lembrar que não usei contrapeso, acessório que pode ser adquirido para o Ioptron e que estou estudando a aquisição. Mesmo assim, são tempos muito superiores ao que eu conseguiria com a EQ-1 num equipamento muito mais portátil.
No Brasil já foi possível adquirir o Ioptron Sky tracker, pelo Caleidocosmo, mas eles pararam de trabalhar com a Ioptron, algo que considerei um erro. Já o Skywatcher Adventurer é vendido no Armazém do Telescópio e está em fase de renovação de estoques. É claro que vivemos uma época complicada no câmbio, mesmo assim, os trackers seguem sendo uma opção barata e portátil para quem que astrofotografar céu profundo em grande campo.

Centro da Via Láctea capturado com o Sky Tracker Ioptron em 28mm e 25 frames de 3 minutos.

domingo, 28 de junho de 2015

O ED de 102mm da Orion versus o Refletor de 200mm da Orion UK.


Após quase um ano com o telescópio Refletor Orion UK VX8 de 200mm de abertura e de vários anos com o Refrator Orion Premium ED de 102mm da Orion, Resolvi fazer um post sobre minhas impressões em relação ao dois telescópios e divagar sobre qual considero o melhor telescópio para Astrofotografia. A ideia original era fazer um post comparando telescópios refratores apocromáticos com refletores para astrofotografia de céu profundo, mas eu pensei melhor e achei que seria pretensão analisar toda uma classe de telescópios se eu basicamente só tive experiências com um modelo de cada, por isso, este post não será sobre refletores vs refratores, mas sobre o Refrator Orion Premium ED de 102mm F7 versus o refletor VX8 de 200mm F4.5

O Refrator Orion Premium Refrator é da empresa Orion, muito conhecida entre astrônomos amadores e astrofotógrafos. A Orion é uma marca que está num nível intermediário no mercado de equipamentos astronômicos e tem como principal rival a Sky-Watcher. Celestron e Meade também rivalizam com a Orion em vários produtos, embora estas duas últimas se destaquem por oferecerem grandes cassegrains em montagem altazimutais, algo que Orion e Sky-Watcher não fazem.
O Orion Premium, servindo de guiagem para fotografia com lentes.
O Orion Premium foi adquirido nos Estados Unidos, no ano de 2011, durante uma viagem para Nova York. O telescópio, composto somente pelo tubo óptico, veio para o Brasil enrolado no meio das roupas dentro de uma mala rígida. Aqui no Brasil eu o coloquei sobre uma CG-5 e o utilizei em quatro EBAs e quase uma centena de fotos feitas na varanda do apartamento.

Tratava-se, na época da compra, do refrator deste tipo e abertura mais barato a venda no mercado. Ele é composto por somente duas lentes, sendo uma delas produzida com material que não dispensa a luz. É o tipo mais simples de refrator Apocromático. Há até quem não considere o Orion Premium um legitimo Apocromático, o colocando numa categoria intermediária, logo acima dos acromáticos, os refratores mais simples. Estas pessoas consideram como apocromáticos legítimos somente refratores ED com três lentes. Eu não vou entrar nesta discussão, mas é claro que apocromáticos com três lentes devem ter um desempenho superior ao ED de duas lentes da Orion.

O Orion Premium saiu de linha pouco mais de um ano após a aquisição. Não sei qual foi exatamente o motivo, se ele estava tirando mercado de outros telescópios da Orion pelo baixo preço ou se o focalizador problemático acabou manchando o nome do produto a ponto da Orion desistir de sua fabricação. Após alguns meses, a engrenagem do focalizador do meu Orion Premium ficou frouxa, me obrigando a ajudar empurrando ou puxando o focalizador sempre que girava o ajuste. Eu não consegui resolver este problema, vi na internet que era um defeito comum no modelo. Mas ao invés de trocar, acabei me acostumando com o defeito, que não atrapalha tanto assim.

No geral o Orion Premium é um telescópio bastante interessante, com um peso adequado a montagens do tipo EQ5, mesmo com o uso de autoguiagem e uma resolução, e aumento bastante adequado para centenas de nebulosas e galáxias. A distância focal de 710mm, gerando uma razão focal de F7 é bastante típica para modelos em sua faixa de preço. Com ele, fiz algumas de minhas melhores imagens, principalmente quando comecei a utilizar uma CCD monocromática com filtros de banda estreita.

Mas a experiência nos torna mais exigentes. Se a ótica do Orion Premium me parecia perfeita no primeiro ano de uso, apresentando apenas um pequeno coma quando os registros eram com câmeras do tipo DSLR, com o tempo eu fui ficando mais chato com as minhas imagens e os halos azuis que apareciam em muitas estrelas mais brilhantes começaram a me incomodar. O Orion Premium é com certeza melhor do que um acromático, mas está longe da qualidade óptica de um apocromático de ponta, deixando o foco no azul bastante distante do foco no vermelho, indicando forte aberração cromática.

A durabilidade do Orion Premium aumentou no momento em que comecei a trabalhar com banda estreita. Curiosamente, apesar de ser um tipo de astrofotografia considerado mais avançado, o registro com o chamado Hubble Palette pode até ser menos exigente quanto a qualidade óptica do telescópio, já que ao trabalhar numa faixa muito estreita da luz o problema da aberração cromática causada pela distensão da luz torna-se bem menos visível.

Já o Refletor Orion UK VX8 foi adquirido no Brasil, por cerca de três mil reais. Aparentemente um excelente preço, já que estava cerca de 900 euros na Europa. Ele foi comprado porque eu sentia necessidade de um telescópio mais rápido e com maior resolução. Apesar de durante muito tempo ter sempre ficado com o pé atrás em relação a refletores, os 200mm de abertura e uma razão focal de F4.5 contra F7 do Orion Premium me atrairam. Com uma abertura quase duas vezes maior e uma velocidade de captura também duas vezes mais rápida que o refrator, o VX8 me prometia um novo mundo de possibilidades em astrofotografia, até mesmo o registro de boas imagens planetárias, algo que o Orion Premium não atendia de forma satisfatória.
O VX8, fotografando planetas na varanda do apartamento.
O que mais me atraiu especificamente no modelo da Orion UK foi o seu peso. A especificação do tubo informava que ele pesava 7 quilos, o que o tornaria bastante adequado para a montagem HEQ5 que uso, mais fraca do que uma EQ6. Além disso, devido a razão focal baixa eu poderia  captar em 5 minutos algo que o refletor levaria 10 minutos. Dobraria a minha produtividade.

É importante dizer que Orion UK e Orion não são a mesma coisa, a primeira é uma empresa inglesa que fabrica seus próprios produtos, enquanto a segunda é uma empresa Americana cujos produtos são quase todos fabricados na China. Antes da compra, eu considerei o fato dos telescópios serem fabricados na Inglaterra como algo bastante positivo, mas depois descobri que a Orion UK é uma empresa pequena e que, apesar de muito bem intencionada, não tem uma fama muito boa no mercado de equipamentos astronômicos.

Quando o refletor VX8 chegou, uma semana após o pedido, eu me deparei com vários problemas. Os anéis de fixação eram de um padrão diferente dos utilizados nas marcas mais populares, e simplesmente não havia dovetail compatível a venda no Brasil. O pessoal do site brasileiro onde ele foi adquirido comprou o telescópio mas não tinha o Dovetail adequado pra ele, que só poderia ser adquirido no exterior. A aquisição de aneis da Sky-watcher e cerca de um metro de fita EVA resolveu o problema, mas a um custo de cerca de 200 reais e uma semana de espera.

Mas o pior foi o focalizador. Sim, de novo ele! Mas ao contrário do Orion Premium bastava olhar para a focalizador do VX8 para ver que ele é péssima qualidade, com um parafuso de pressão que caia dentro do telescópio ao ser apertado, esta peça foi com certeza a maior decepção do VX8. Eu consegui remediar trocando um dos parafusos de pressão do focalizador por um que achei em casa, mas o parafuso que regula a pressão, do outro lado do focalizador, é uma peça de muito ruim, de plástico vagabundo, algo inacreditável para um OTA de 900 euros, e até hoje eu tenho problemas com o produto (Pra variar, ao invés de trocar, eu fico lidando com produto vagabundo!).

Depois fiquei sabendo que o VX8 que comprei era de uma linha que estava sendo trocada por uma segunda geração, que vinha com um focalizador novo, aparentemente melhor. E era esta segunda geração que estava novecentos euros na Europa e não o modelo que comprei no Brasil. Para completar minha insatisfação, descobri que a Orion UK tinha a estranha política de vender seus telescópios com upgrades em sua óptica. E certamente o meu não tinha este upgrade. A Orion UK consegue ser uma empresa bizarra, na minha humilde opinião.

A boa notícia foi que, se a especificação no site da Orion UK apontava que o VX8 pesava 7 quilos, ao colocar na balança ela marcou 6,2 quilos, o que achei muito bom. Este peso me permite guiar com o telescópio com a mesma qualidade que guio com o refrator, já que ao adicionar o peso da levíssima Atik 314L com uma roda de filtros pequena e da guiagem com uma buscadora de 50mm, o peso total do setup astrofotográfico fico em somente 7,6 quilos.

A tal da colimação era uma preocupação constante antes da aquisição do refletor, mas a aquisição de uma ocular Sheshire, produto barato e funcional, tornou a tarefa muito mais simples, embora eu ainda não tenha dominado totalmente o assunto. Só me incomodou o fato de que oVX8 descolima muito fácil. Ele até tem alguns parafusos de trava, mas eles não funcionam bem, deixando o telescópio descolimar mesmo quanto devidamente apertados e até mesmo descolimando o telescópio quando eu aperto eles. Basicamente eu tenho que colimar o telescópio a cada sessão. Um colega, entendido do assunto me disse que isso deve ocorrer devido a flexão do tubo, que não teria uma estrutura suficientemente firme para manter tudo alinhado durante a movimentação do telescópio na montagem. É o peso que paguei pelo telescópio ser leve. A sua maior qualidade também gera um de seus maiores defeitos.

Nas primeiras tentativas com o VX8 eu fiz a besteira de colocar os pés da montagem estendidos, para que o telescópio ficasse mais alto e eu tivesse uma melhor visão do céu, já que minha varanda é cheia de obstaculos que bloqueiam cerca de 60% do céu. Mas logo percebi que o telescópio nunca iria acompanhar corretamente com os pés abertos daquele jeito e percebi que a única forma de usar o refletor seria com os pés do tripé totalmente recolhidos, deixando o telescópio o mais baixo possível. Isso me fez perder um pouco de céu, mas se mostrou a única forma de utilizar o telescópio com tripé.
Algo que gostei muito ao trocar o refrator pelo refletor foi a saída do porta ocular, que pode (e deve) ficar apontada para cima. Isso me deu muito mais segurança ao conectar câmera e roda de filtros a saída da ocular, pois me tira a preocupação de que o equipamento fotográfico solte do focalizador e caia durante a sessão fotográfica. Refratores, quando apontados para cima, deixam o porta ocular apontado para baixo.

Mas maior dificuldade o refletor foi o foco. A razão focal de 4,5 do VX8 torna o foco um desafio, muito maior do que no refrator que é muito mais fechado. Além disso, é comum a câmera simplesmente perder o foco durante a captação, mesmo que o focalizador não se movimente. Mas este problema parece ser comum a todos os refletores, mais sensíveis a mudanças de temperatura que refratores.

A troca do refrator pelo refletor não aconteceu da noite para o dia e na verdade ainda não está consolidada. Eu até tenho gostado de muitas imagens feitas com o VX8. A distância focal não é muito diferente, 900mm contra 710mm do Orion Premium, mas o nível de detalhes que as imagens revelam são superiores, só que as dificuldades que o refletor impoem, se aumentam o desafio, algumas vezes ultrapassam o nível da diversão para se tornarem puramente Stress. É quem me conhece sabe que eu valorizo mais a experiência da astrofotografia do que o resultado em si. E mesmo nos resultados o VX8 perde em alguns pontos. Talvez devido ao peso, ao focalizador ruim, ou ao coma, as estrelas ficam melhor no refrator do que no refletor. No fim estou considerando o refletor ideal para objetos menores, que exigem uma maior resolução, mas o refrator ainda é bom para objetos mais extensos, quando eu quero aproveitar toda a área de captura. Talvez quando eu adquirir um corretor de coma, algo que já devia ter feito, o VX8 torne-se o telescópio predominante nas capturas.

Quanto ao Orion UK VX8, especificamente, é um telescópio problemático. Uma vez um astrônomo veio reclamar comigo por que queria se tornar representante da marca no Brasil, mas como eu estava falando mal da marca (e parece que algumas pessoas consideram este blog importante em termos de equipamentos, o que me deixa feliz) ele estava desistindo disso. Bem, o pessoal do site onde eu adquiri o telescópio já desistiu da Orion UK faz um bom tempo. Acredito que eles sabem bem dos problemas da marca agora.

Quanto a mim, gastei 3000 mil reais com o tubo óptico do VX8, mais 250 com os anéis de fixação e não acredito que vou encontrar outro tubo tão leve quanto ele. Se me entender melhor com o focalizador (ou trocar por um melhor) talvez eu e este telescópio tenhamos longos anos juntos de astrofotografia. Mas o refrator ED, por ser imagens como a Abaixo, não deve ficar totalmente de lado.


Nebulosa da Águia, capturada com o refrator ED de 102mm. O ED ainda irá me proporcionara alegrias.


Imagen cropada dos pilares da criação feita com o refletor, o 200mm parece uma opção melhor para destacar detalhes ou objetos de menor tamanho aparente.

terça-feira, 31 de março de 2015

A aquisição de equipamentos astronômicos no Brasil

"Aproveitando" este momento de dólar alcançando níveis "astronômicos, resolvi falar de algo que já era difícil e agora ficou ainda pior: a aquisição de equipamentos de astronomia amadora na Brasil.

Não é de hoje que comprar telescópios, montagens, câmeras e acessórios para Astronomia e Astrofotografia é uma grande dificuldade no nosso país. Na verdade, posso até dizer que antes dos últimos acontecimentos a situação até vinha melhorado de forma lenta, mas constante. Eu lembro muito bem do primeiro telescópio aceitável que comprei, em 2003. Era um refrator acromático de 90mm F10 da Orion, com montagem altazimutal sem motorização. Era um belo telescópio para a época. Eu praticamente não tinha um amigo que tivesse algo parecido, custou cerca de 1700 reais (mais de 3 mil em valores atualizados) e levou cerca de dois meses para chegar. Hoje ainda é possível comprar um Maksutov de 90mm com montagem equatorial e com motor por cerca de mil reais no Armazém do Telescópio.

Na época da aquisição do meu refrator de 90mm praticamente só havia um lugar para se comprar telescópios decentes no Brasil, o site Brasil Hobby. Hoje há pelos menos 4 sites aceitáveis, o Armazém do Telescópio, o Caleidocosmo, o Tellescopio.com e o Astroshop.
Com a alta do Dólar, é assim que os telescópios
começam a parecer para nós braileiros!
O Armazém do telescópio é certamente, e disparado, o melhor site Brasileiro para se adquirir equipamentos astronômicos. Posso até dizer, o que muitos astrônomos amadores experientes reconhecem, que o Armazém do Telescópio tem feito um trabalho dos mais importantes na propagação da astronomia amadora no Brasil. Na astrofotografia eles tem papel fundamental na popularização e avanço da astrofotografia planetária amadora a níveis internacionais com a disponibilização de câmeras astrofotograficas planetárias de 16bits a preços bastante acessíveis, como as ZWO e as Expanse, permitindo até mesmo astrofotógrafos amadores jovens produzirem trabalhos admiráveis, como o caso do astrofotógrafo Flávio Fortunato.

O Caleidocosmo e o Tellescópio.com vieram na onda no Armazém, em geral, e de forma inteligente, estes sites atacam aonde o Armazém é menos relevante, principalmente em Astrofotografia de céu profundo a nível avançado. O Tellescopio.com tem sido mais feliz em suas escolhas, em especial pela aquisição das câmeras da QHY, que chegam ao Brasil a custos muito próximos aos que câmeras semelhantes custam no exterior. O Tellescopio.com também organiza o interminável Concurso Nacional de Astrofotografia, que começa no início do ano e termina uns dez meses depois, fazendo propaganda do site deles mas também ajudando a divulgar a Astrofotografia Amadora brasileira. O Caleidocosmo investiu em telescópios de ponta, mas comete o erro de investir em marcas pouco conhecidas e sofreu ao adquirir câmeras equivocadas, como ultrapassadas Imaging Source bem na hora que chegavam as ZWO no Armazém, além de câmeras da Atik com sensores muito pequenos e preços mais elevados em relação à concorrente QHY vendida no Tellescopio.com. De qualquer forma torço para que o site continue a acerte mais no futuro.

Por fim temos o Astroshop. Na verdade este site é um desdobramento do antigo Brasil Hobby. O Astroshop não é bem visto por muitos astrônomos amadores, mas tenho que admitir que fiz muitas compras com eles e não me arrependi de quase nenhuma, como a montagem CG5 e uma EQ1 que, diga-se de passagem tinha uma motorização muito melhor do que a atual, que comprei no Armazém do Telescópio. Mas o site esta quase todo fora de estoque, sendo que muitos itens aparecem há muitos e muitos anos como em falta e não há qualquer perspectiva de reposição.

Por falar em estoques, esse certamente é o ponto mais negativo dos sites Brasileiros. Geralmente quase tudo está em falta e os produtos ficam uma eternidade ausentes. Quando um equipamento esgota sabemos que provavelmente já era. Talvez sejam anos até aparecer de novo, isso se simplesmente não sair do catálogo.

Adquirir um equipamento de astronomia amadora ainda é uma dificuldade enorme no Brasil, até mesmo para quem tem boas condições financeiras. A realidade que quase todos os astrônomos amadores vivem em nosso país é a de esperar, esperar e mais esperar, acessando constantemente os principais sites brasileiros até o momento em que algo novo apareça. Muitas vezes os equipamentos que surgem nem são aqueles que queríamos, mas na falta de opções temos que aceitar o que nos é disponibilizado. Pelo menos vai chegar em poucos dias, vai dar pra parcelar e você não vai precisar se aventurar no exterior. Outras vezes o equipamento ideal surge, mas nos pega num momento ruim, naquela semana em que você bateu o carro, descobriu que sua namorada está grávida, ou simplesmente estourou o cartão de crédito. Então você é obrigado a deixar passar, mesmo sabendo que talvez nunca mais veja aquele equipamento novamente.

Em redes sociais e fóruns, há alguns grupos de venda de equipamentos astronômicos usados. Em especial no Facebook. Os maiores são o Mercado de Astronomia e o Brechó de Astronomia. Para você ver a importância que dou ao assunto, estes grupos são dois dos únicos três em que em todas as notificações estão ativadas em minha conta, o outro é o Astrofotógrafos do Brasil, grupo que sou proprietário e que convido somente os melhores astrofotógrafos amadores que conheço ou pessoas relevantes para a área.

Cada vez que recebo uma notificação destes grupos de venda de equipamentos astronômicos eu corro pra ver o que apareceu, sempre na esperança de ver algo realmente interessante, mas a situação não é diferente dos sites. Quase sempre que surgem boas oportunidades, eu estou sem dinheiro. Um sintoma da situação de mercado de equipamentos astronômicos no Brasil é que nestes grupos não raro produtos usados surgem com preços superiores ao que era pedido pelo produto novo, quando estava disponível no site. Afinal, o vendedor sabe que  o comprador não vai encontrar em outro lugar. A lei da oferta e procura é implacável no Brasil.

É uma situação que mostra que, se a situação melhorou nos últimos anos, não quer dizer que ainda não seja desoladora para nós brasileiros, principalmente quando comparamos com o mercado em países desenvolvidos. Um brasileiro que navegue por sites como o da OPTcorpTelescope-Express ou mesmo Telescope.com fica com vontade de chorar (ou babar!), tamanha a diferença de opções em telescópios, câmeras e acessórios. Isso sem contar os preços, que são em média menos da metade do que pagamos aqui no Brasil, mesmo os países de origem destes sites tendo rendas per capita várias vezes superiores à nossa.

A OPTcorp e o Telescope-Express estão entre os poucos sites que entregam para o Brasil. Mas os impostos são altos, o frete pode ficar mais caro que o produto para equipamentos de maior peso e volume como telescópios grandes e montagens, e o pessoal da Alfândega geralmente libera o produto quando quer. Do momento em que o produto sai da loja até a chegada em sua cidade sua compra está numa zona obscura, aonde corre o risco de ficar por meses. além disso, está limitado a cota de 500 dólares, para não ter que se preocupar com burocracia ou pagar taxas altíssimas. Eu geralmente recorro a sites estrangeiros somente quando estou em busca de acessórios pequenos, como filtros e adaptadores, sempre abaixo dos 500 dólares.

Alguns vão dizer que viajar para o exterior e comprar tudo lá é a solução para todos os problemas. Mas não é fácil assim. Ir para o exterior para comprar equipamentos astronômicos pode parecer algo trivial para quem tem muito dinheiro ou para quem viaja muito para outros países as custas da empresa que trabalha ou tem sempre outros motivos para sair do país. Mas para alguém de classe média, tirar passaporte, visto, pagar passagem de avião, hotel, taxi, seguro viagem e correr o risco de ser taxado na alfândega ou ficar limitado a irrisória taxa de quinhentos dólares para compras no exterior, parece mais medida de desespero do uma decisão inteligente. A compra no exterior é uma ótima solução, o problema é que não é para todos.

Por fim ainda temos o pior ramo do mercado de equipamentos astronômicos no Brasil, aquele que se aproveita do total desconhecimento de grande parte dos compradores destes equipamentos, vendendo binóculos e telescópios inúteis ou de péssima qualidade em shoppings, lojas de departamento e feiras do paraguai, entre outros lugares.

Uma questão complicada para os astrônomos amadores é uma empresa que possui um grupo de sites na internet, entre eles Binoculos.net, Astrobrasil e Casa do Astrônomo, além de alguns outros que devem existir por aí. É possível chegar a um deles, inclusive, se você digitar www.armazemdostelescopios.com.br, pois o site tenta pegar quem estava procurando pelo Armazém do Telescópio (no singular). Esse grupo trabalha com a marca Toya e outras semelhantes, segundo eles, Toya é o telescópio mais vendido do Brasil. Bem! A propaganda da Tekpix também dizia que ela era a câmera mais vendida do Brasil.

Eu não vou cair de pau nas lojas. Quem tem comprado delas não tem reclamado de falta de entrega. Eu também nunca tive um telescópio da Toya, então o que posso dizer é o que vejo nas redes sociais. Procuro ignorar aqueles que estão apenas repitindo o que ouviram ou leram e prestar atenção nos donos destes delescópios.  Algumas pessoas tem conseguido bons resultados com telescópios da Toya, outras não conseguem nada, outros até elogiam a óptica mas reclamam veementemente da mecanica do telescópio, dizendo que estão desmontando após o primeiro ano de uso. Pra mim, é fácil ver que as montagens são subdimensionadas e que um telescópio de 200mm F3,9 cujo focalizador nem sequer é de duas velocidades é algo temerário.

Em termos de mercado o mais importante é saber que se você adquirir um telescópio da Toya, Greika ou similares, você adquiriu um mico, um produto que terá dificuldades para vender, que terá que passar pra frente por um preço muito inferior ao que comprou ou encontrar um comprador bastante leigo no assunto.

Por fim temos os ATMs, ou Amateur Telescope Maker, que são astronômos amadores que também fazem telescópios e comercializam sua produção sem realmente tornarem-se uma marca ou empresa. Nos anos noventa esta era provavelmente a melhor forma de se adquirir um telescópio no Brasil, quando não a única. Este também é um assunto complexo de falar. Eu não acompanho muito o trabalho dos ATMs atuais. Não há um site de vendas de telescópios de ATMs. Alguns até tem sites e você pode encomendar, mas tem que entrar em contato diretamente com eles. Outros praticamente se aposentaram ou já aparentavam estar em idade muito avançada em sites publicados vinte anos atrás e nem sei se estão vivos hoje. Um que conheço, é respeitado e sei que está bastante ativo é o Sandro Coletti. Ele inclusive trabalha em parceria com o Armazém do Telescópio e me pergunto se no futuro não veremos telescópios da marca Coletti à venda, algo que eu acharia muito interessante. Todos sabemos que em crises também surgem coisas boas e quem sabe, com a desvalorização do real o resultado seja algo bom. O Armazém tem vários projetos que você pode acompanhar clicando aqui.

Este texto não esgota todo o tema, mas é uma compilação do que acho mais relevante no momento. Tentei ser o mais justo possível com todos os envolvidos, já que não tenho relacionamento com nenhuma das empresas acima, a não ser como um consumidor exigente e às vezes até chato. Espero que tenham apreciado o texto. Enquanto isso eu vou aguardando ansiosamente o fim das chuvas em Brasília.